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quarta-feira, 24 de agosto de 2016

As sombras de Agosto


As cidades vivem das suas sombras
Especialmente em Agosto.
Ou sempre.
As sombras de Verão não são sombrias.
São protetoras
Dos DJ que vivem na praça, das multidões que varrem os passeios, rua abaixo, dos mercados de rua, das lojas de gelados e dos cafés que convidam a uma lânguida inação.
Das raças, dos sexos, da igualdade dos géneros e da nossa obrigatória opinião sobre a liberdade religiosa e os conflitos de civilizações
Diluem as identidades, mesclam os autóctones e os forasteiros.
Nas sombras ninguém os distingue apenas pelo sotaque e tornam as cidades mais iguais.
As penumbras libertam, os que nelas vagabundeiam, e tornam as cidades mais igualitárias.
Sem que nós nos sintamos constrangidos por não ter opinião, por esperar que alguns problemas se resolvam por si.
Isso mesmo, um refúgio para a ausência de opinião
Por isso nos afastamos dos reflexos da luz quente de Agosto.
Preferimos a irreverência e a inconveniência.
A descrição ou a tontice compulsiva.
E as duas ao mesmo tempo.

Que o Sol, quando se levanta, nasça só para iluminar o que nos rodeia.











terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Downtown LX – Shadows in the Night



Por de entre as gargalhadas que ecoam na calçada velha, para lá do Carmo, multidões de jovens (vultos que riem alto, como jovens e tudo o resto, simplificações mentais) provocam o silêncio do convento ou do quartel, com as garrafas de cervejas eretas em punhos cerrados.
Entre (cai) o Carmo e Trindade, a exuberância do Chiado e a solidão dos becos que o rodeiam e dos ministérios na praça do comércio, submerge um microcosmos de seres que se alimentam da noite: mendigos encovados mas eloquentes na estação do Rossio, traficantes de haxixe nos cruzamentos da Augusta, hordas de turistas jovens que se “flasham” sem descanso, num intenso fulgor que cansa a estátua cavalo do D.José.
E também sombras que não habitam a noite, que a usam apenas como um intervalo entre a luz do dia e o conforto de um lar maior.
 
(Passos rápidos e intermitentes que voam sobre a calçada em direção ao rio)
 
A noite também escurece as personagens que a povoam!
Não são apenas os filhos de um Deus menor, os sem-abrigo por vocação ou pudor, que flutuam solitários entre as esquivas esquinas de um frio que resiste à luz branca que nos afronta das fontes do Rossio e nas fachadas da Praça do Comércio.
(Quantas pessoas pareciam esperar que ninguém os viesse buscar, debaixo do candeeiro de rua, à frente de um ecrã iluminado de telemóvel?)
E ninguém, equilibrando-se no lancil de passeio polido pela humidade e pelos reflexos da água, parece ter qualquer significado cósmico na noite inclinada da cidade.
Mas a noite não tem contraste, só sombras e reflexos e, à distância de uma objetiva vulgar, imaginamos gatos pardos, em todas as silhuetas que rolam pela rua abaixo e viela acima sem destino preciso.
A capital é um zoológico de seres, quando o manto escuro envolve a cidade, como uma selva que não identifica nem os predadores nem as vitimas, apenas os cheira e os pressente.
Frio, vozes de múltiplas línguas, sombras e reflexos de cores bipolares (bendita a predominância arrogante e ofensiva dos ofegantes e sincronizados semáforos urbanos) no asfalto e na calçada portuguesa
Sábado à noite, downtown LX!
Shadows in the night!
 
 

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Sombras de um Inverno Nórdico



(ou não há tarde nas paisagens do Norte)
A Escandinávia rural embala-nos à volta do roast beef e do arenque (o arenque é invenção minha, porque não visão - estereotipada - completa do universo nórdico sem o salmão e o arenque)
São algumas (uma, duas talvez) horas da tarde e desde a manhã que persiste a mesma sensação de eterno pôr-do-sol atrás das nuvens, numa constância de cinzentos meio-toms, um amarelo sol que rompe esporadicamente o ameaçador carregado sobrolho celeste.
Silêncio, cavalos, sombras e reflexos no lago quase gelado, numa província em estado semi sólido, pequenos interlúdios da imensa planície branca.