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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

António, o último lobo da floresta


A noite já caíra sobre os contornos da vila e sobre os restos do pinhal que o temporal do Outono não destruira e, do outro lado da rua, só havia breu e até o gato do vizinho era negro, escapulindo-se para lá dos campos primeiro assustadiço depois, vencido pela fome, renascido das trevas e enroscado nas nossas pernas, afinal de contas os gatos não têm amores incondicionais, até se transfiguram em cão, por um pedaço de pão.
Do lado de cá da rua, sentados debaixo das estrelas de um céu de verão, há um rasto de fim de estação, pois estamos em setembro e, no Oeste, os nevoeiros e as chuvas costumam ser precoces.
Ontem as pessoas fugiram do Outono precoce, mas o Verão deixou-se enfeitiçar pelo cheiro a maresia.
E, sentados na esplanada do restaurante do António, já não hesitamos por não haver mais clientes, já não recuamos ao cheiro de creolina na sala de jantar e, diante do arroz de polvo fumegante e confecionado pela irmã dele, apenas com as pernas do animal, porque sem ventosas não há sabor pleno e o polvo tem cabeça dura, escolhemos comer o animal envolto em arroz malandro e disfrutar do privilégio de jantar sozinhos na rua, no calor da noite, porque já não me lembrava que podia haver lugares assim, de sabor intenso e longe da multidão.
E depois de dois copos de vinho branco da garrafa do António, pareceram-nos deveras  verosímeis as recordações dele, dos tempos em que, nas florestas em redor da vila, havia lobos e raposas que não fugiam dos humanos e que visitavam os putos no campo da bola e, afiançava o António, os  animais selvagens deitavam se debaixo das árvores, virados para o campo como adeptos [e não de costas como seguranças]  e assistam aos jogos de bola de forma ordeira e até com alguma admiração pelos putos.
Claro que hoje, para lá do outro lado da rua, nas trevas que demarcam os limites da vila e da antiga floresta, agora os restos de um pinhal destruído pelos temporais do Outono passado, os únicos animais, espécie de selvagens, que por lá andam são os gatos vadios, os tais que se tornam mansos e sonsos quando têm fome.
 As rugas do velho António são um decalque das  mudanças de muitas décadas e de um século que precederam a sua reforma  e, olhando nos seus olhos cansados, mas vivos, todos nós  compreendemos que o trajeto de um homem se divide entre a vida [aquela que se vive] e as recordações [aquela vida que se gostava de ter vivido] que constroem uma vida paralela em que os contornos da ficção se tornam mais difusos à medida que a memoria da vida real se desvanece.
Mas é tentador acreditar que o António foi a principal testemunha viva do passado esplendoroso da vila litoral, um local de refugio da elite e de ostentação da herança industrial do centro do país, cuidadosamente desenhado pelo arquiteto Jose de Lima Franco numa cuidadosa meia-lua de quarteirões de vivendas debruçadas sobre as arribas e sobre  o mar.
O velho António é um saudosista confesso da sua própria juventude, do seu raposo de estimação que passeava como se fosse um cão por entre as celebridades que visitavam a vila no fim de semana da prova de automobilismo, os fatos escuros e as poses altivas que respiravam dinheiro, família e orgulho industrial.
Nesse tempo, era uma cidade cuidada, ele afirmava, entre duas escapadelas ao gasto Citroen Saxo, estacionado do outro lado da rua, com o radio ligado para confirmar se o Sporting estava a ganhar, porque eu sou sobrinho de um fundador e uma ascendência dessas obriga o a sofrer mesmo quando o clube ganha e novos clientes se aproximam da esplanada.
Sim, e verdade que há uma nova vaga de locais, uma heterogénea convivência entre os novos estrangeiros que se apaixonam pela elegante decadência do local, pelo espaço livre e pelo mar aberto, os velhos nacionais que habitam o interior centro, e que abrem aqui a sua janela para o mar como que a arejar um ano inteiro de montes, vales e, por vezes, de floresta ardida, estendendo a roupa o bolor e pele ao vento, à areia e às ondas e uma certa juventude urbana e bronzeada que vive da herança industrial entretanto quase extinta.
Percebo que o velho António, um homem que se sente descendente da uma certa aristocracia que nunca terá existido, sinta saudades da forma como o mundo lhe parecia familiar em pequeno, um mundo pequeno e previsível, mas onde todos se conheciam, bebiam copos na taberna, lutavam por um parco triunfo e falavam uma só língua. 
E na noite, sem luz nem cor, o António regressa ao passado quase sem interferências.
Além disso, o Sporting ganhou, o gato jantou e nós entregamos as nossas crenças ao arroz de polvo, aos dois copos e vinho branco de Pegões, aos sorrisos da irmã  e às memorias do último lobo da floresta desaparecida.
S Pedro de Moel, imagens contadas a preto e branco, a partir dos longínquos anos sessenta



 

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