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sábado, 10 de novembro de 2012

Machu Picchu – Os três níveis da vida






Se deus quiser, amanhã de manhã os relâmpagos e a chuva já se deitaram e o sol intihuapa vai estar lindo e brilhante”
No santuário, entregam-se oferendas e fazem-se sacrifícios ao Huaiana Picchu, para que a bonança se sobreponha à tempestade, os relâmpagos sucumbam ao arco-íris…
Um festim medonho, pernas de cordeiro em forma de guisado, abundantemente regado a vinho tinto chileno cor de sangue e pisco sour para os sacerdotes celebrarem a mãe natureza.
Às seis horas da manhã do dia seguinte, o céu estava azul sobre as montanhas da cidade perdida e línguas de névoa (o espírito do cordeiro) invadiam docemente as ruínas…
Silêncio profundo no manto verde e montanhoso, um puma que não tem pressa de acordar, uma sonolenta vida terrena, concluímos nós.
Na precoce manhã, a vida subterrânea serpenteia o vale lá em baixo, um inquieto rápido sobre a forma de serpente, e, qualquer que seja o angulo, ela cerca-nos sem descanso.
Os milhares de pássaros andinos, não são deus na terra ou condor no ar, mas agitam-se incessantemente entre as ruínas de pedra, seus ninhos celestiais.
Machu Picchu é a terra dos pássaros, prova indiscutível que esta é uma terra de deuses.
O puma imaginado na pedra não reage, nem na temperada manhã, nem após o repovoamento do lugar, umas horas depois.
Este não é pois, definitivamente um lugar terreno.
Também Bihram teve dificuldade em reconhecer este local como uma terra de homens, tais as dificuldades em achá-lo, em alcança-lo, em domá-lo, em entendê-lo…
Aí, as serpentes da selva e o serpentear do rio fizeram-no pensar que não haveria vida para além dos símbolos da morte inca, apenas vida subterrânea, incompreendido pelos nativos e fustigado pelas chuvas torrenciais.
Não há pois, aparentemente, estágios de vida intermédios na cidade perdida!
Às nove da manhã, uma mulher de hispanidade ambígua chorava copiosamente diante da visão arrebatadora da cidade redescoberta e soltava lágrimas, tão abundantes e inquietas quanto os rápidos do rio urubamba, para o telemóvel gasto pelo tempo e pela espera:
“Estou muito emocionada. Já cheguei, graças a ti!”
Não entendemos mas parecia profundo, uma espécie de desfibrilhador emocional.
Cinco horas depois do nosso primeiro olhar, com os nossos olhos pejados de uma paisagem suprema, olhámos por detrás do ombro esquerdo, numa lógica de despedida emocionada e silenciosa (havia malta jovem sentada em posição yoga e estados avançados de transe).
E, de repente, pareceu-me (não, tenho a certeza) que, na encosta por detrás das ruinas, o desenho do puma – símbolo da vida terrena - e puma animal, agitou-se de forma súbita, exibiu a sua enérgica posição de fera ao ataque…e ter-se-ia lançado sobre a multidão extasiada…se não fosse apenas uma interpretação pouco plausível, nem uma lenda sequer, e de pedra
Afinal, mesmo que tardiamente reconhecida, machu picchu revelou-se um sagrado lugar terreno.
Prova de puma!
Invulgar, extraordinária, mas terrena.
Abandonei as ruínas da sagrada cidade perdida, convencido que entre mim e o puma poderia ter nascido uma linda amizade!
Se ele tivesse renascido da lenda como um ser real.
Seria?
Num local como este, os meus olhos e o meu cérebro são incapazes de destrinçar (falta de discernimento total) entre o que acontece e aquilo que nós pensamos que está a acontecer.
Cinco horas em Machu Picchu, muito melhor que qualquer realidade!

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Rail to Machu Picchu


Vistadomme desce o vale estreito a um ritmo descontrolado de mais de 20 km/h.
E o vale estreita e aproximamo-nos das paredes de uma vegetação mais densa, adivinha-se a selva amazónica por detrás dos picos, para onde o rio urubamba se despenha, ora alargando ora encolhendo, conforme o espaço que a montanha lhe concede.
Os rápidos não desarmam, uma ansiedade irreprimível de chegar ao grande rio Amazonas.
Vistadomme desce ao ritmo da música espiritual andina e persegue a corrente do rio, sem êxito.
Na última curva do rio, águas calientes espreme-se no fundo de um entroncamento de desfiladeiros, como uma terra de múltiplas fronteiras: a selva amazónica, a cidade perdida nos cumes inacessíveis e o caminho de fuga de um dos últimos “ultimo” inca em direção a villacamba nos seus exílios lunares, enquanto o seu mundo de bronze se desmoronava a sul e a norte, a leste e a oeste e nascia um mundo de um só deus…


A linha férrea semiabandonada que trespassa o vale e o povoado entre pizzerias, lojas de souvenirs e hostels de mochileiros, submergindo a estrada inexistente, que já se afundara no vale sagrado recorda-nos que, depois de águas calientes só resistem os bravos do pelotão!
Bom, consideremos que esta é uma visão fantasiosa, mas reconfortante.
Enquanto habituo a minha visão à baixa altitude (afinal de contas estamos a pouco mais de 2,000 metros) e à agitação multidireccional (porque vem de todos os lados, culturas e latitudes) despejada em rápidos de seres humanos à procura de um momento de comunhão sobrenatural com a mãe natureza, invadem-me perigosas alucinações.
Vindo da selva, escapa-se primeiro um rasto de fumo a sobrevoar os telhados de zinco (uma gata nos telhados de zinco?), depois a aparição de um longo e ruidoso comboio a abarrotar de madeiras preciosas, culturas tropicais, indígenas e metais preciosos, que invade o fundo da rua dos souvenirs, e se aproxima velozmente da nossa visão grande angular…
E ninguém parece estranhar…
Um fantasma (será a sua transparência, sinónimo de imortalidade?), de manco inca pulverizado de ouro, chapéus altos e tecidos garridos, puxa do apito, impassível mas obstinado, rio acima em direção ao vale sagrado.


Começou a subida alucinante para a cidade perdida!

domingo, 4 de novembro de 2012

Domingo é dia de feira no vale sagrado

Domingo em Pisac é dia de feira.
Tal como em todo o vale.

Logo de manhã, enquanto o petrificado e pindérico puma colérico procura lançar o pânico no povo (sem qualquer efeito aliás, o velhote mumificado que se sentava à sua sombra que o diga, ele era o espelho do tédio) …
O povo invade as ruas e as estradas, vestido num arco iris de roupa e chapéus (sim, chapéus surreais, cartolas e de coco com umas abas de acrescento, um erro lamentável de um empresário, certamente de origem espanhola).
A procissão que desfila através das janelas do nosso combie de luxo, monta as bancas em todas as praças e ruas, aquece os fornos de assar o pão, espeta os porquinhos-da-Índia sobre as brasas improvisadas de um qualquer lugar, um repasto que se confirmará como a última ceia dos guerreiros feirantes…
Como foi afinal a última ceia de Cristo, segundo artista andino desconhecido, elevado à imortalidade nas paredes da catedral de Cusco.
Seja qual for a ocasião ou o pretexto, o baby pig é que se lixa!
A nova Pisac do vale (distante da inca perdiz – em quéchua, sinónimo de pisac) atrai também outros espécimenes mais alternativos, aquela raça de europeus encardidos que sempre renascem (intemporais) das cinzas qual JC, direitos ao passado de ganza e das drogas alucinogénias, e que deambulam por todos os jardins floridos ou quintais que evoquem (mesmo que remotamente) um título de sagrado.
Tudo se compra e se vende em Pisac, numa gigante feira, uma exposição universal do mundo peruano em formato Perú dos pequeninos, onde deixamos de entender se o objetivo final é comercial ou antropológico.
A mesma diversidade de cores e feitios, um bazar dos antigos ali, ou em qualquer pisac do mundo!

A antiga Pisac das montanhas abruptas, permanece silenciosa nos cumes que cercam o sagrado vale, relembrando os nossos contemporâneos que as verdadeiras razões para se permanecer nas alturas podem ser intemporais… porque a história é longa, e repete-se!
Ruínas sábias!
Dilúvio no vale e no rio, a terra tremente, soldados espanhóis a rebolar ao contrário da corrente do rio e os restos da civilização inca, arrastados pela corrente abaixo.
Sinais da História e da Natureza!
Em dias maus, é melhor deixar o verdejante vale entregue à cultura das batatas e outros vegetais.

sábado, 3 de novembro de 2012

Ollantaytambo, o templo do Sol


Aqui, envolvido pelos terraços de Moray, circulo perfeito de terraços agrícolas, laboratório agronómico inventor de espécies, percursores da batata e da agricultura biológica…
Aqui, sobre a encosta de Maras, onde os pacientes incas esperaram que o sal brotasse das entranhas da montanha e o tratavam como o sal de mar (as) …
Aqui, debruçado sobre o rio sagrado, enquanto o divino sol se despede do vale, por detrás do ocidente, para lá de Machu Picchu…

Aqui, na encosta do templo sagrado de Ollantaytambo, onde me imagino sentado no trono do inca a venerar o sol que nasce na montanha a leste, e o Deus de todos os deuses esculpido na pedra…
Aqui, na varanda do quarto do hotel rio sagrado, embalado pela música da corrente do rio, pelos pássaros que enfeitam os mantos de escuridão que nos invade, e pelo eco do apito do comboio que regressa de Machu Picchu a Cusco…
Aqui, converto-me sem condições ao ciclo da religião inca:
Uiracochan – imagem do criador do céu e da terra
O Sol e a Lua
A manhã e a tarde
O verão e o inverno
O raio e as nuvens
A chuva e o granizo
A terra e o mar
O rio e as árvores
O puma
O homem e a mulher
Deus de todas as coisas
A alimentação do povo
….
Com algumas pequenas imprecisões de teor andino!
Cientistas e agrónomos, arquitetos e sacerdotes cheios de penas coloridas, observadores e planeadores sem referências de civilizações vizinhas, um povo normalmente obediente, de tanto agradarem aos elementos sagrados da natureza se esqueceram que nem todos os estranhos barbudos que não tomavam banho todos os dias, eram deuses enviados à terra…
E tramaram-se!
Mas foi uma pena.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Cusco, Capital Imperial


Cusco é a capital inca que os espanhóis trituraram na capital das índias ocidentais.
Por mais que os movimentos incanistas prometam não prestar vassalagem à hispanidade, vão ter de esperar por um novo terramoto e que as reconstruções de 1650 e 1950 não aguentem o novo abalo de 2250.
Exercício difícil para um império que durou cerca de cem anos e que foi, antes do resto (e naturalmente que o resto é ainda muito), uma síntese das civilizações americanas anteriores.
Inca é, acima de tudo, o fascínio do desconhecido e do lendário…
E a ligação profunda à natureza que adoram e exploram e o (provável) mito urbano de que eram um povo que vivia para as coisas simples.
Para além de socialistas, também ecologistas.
O incanista José, mestiço, cantiflas e o novo avô cantigas, eriçou o seu fino bigode com a nossa discordância académica sobre os (pouco frequentes, é verdade) sacrifícios humanos de raparigas escolhidas aos deuses, nos vulcões gelados dos andes.
Bom, estamos na fronteira da imprecisão histórica – alguns povos residentes nos territórios incas, faziam-no, e a forma liberal como os incas tutelavam alguns territórios, sobretudo a sul, permite, hoje, a eles incanistas renegar a paternidade destes rituais, que mancharam a reputação dos Aztecas, reputados de bárbaros pelos descendentes dos Incas
Mais eriçado (agora de orgulho) só quando celebrou o terramoto como a desconstrução criativa do poder inca.
Cusco património da humanidade, é uma cidade peculiar, vibrante e mestiça. Mas o colonialista é conhecido e a sua predominância é clara.
Os espanhóis criaram uma cidade sobre Cusco tão imponente e grandiosa que não permitiu ninguém algum dia descobrir, por debaixo, os restos da geometria da cidade antiga.
Mais grandiosa que a original, tão imperativo era o desígnio da evangelização!
Na noite fria da explicada altura andina, o ar cortante que se respira entre ruas, praças ou travessas, é definitivamente colonial


Como o requinte e o bom gosto que não se escondem nas arcadas da praça, das três praças que redefiniram o urbanismo da cidade inca sagrada, onde cada templo, cada expectativa de palácio ou residência sacerdotal é hoje, meticulosamente calculado, uma igreja, um convento ou uma residência colonial pós Pizarro.
Olho por olho, templo por igreja!
Sagrada era e assim se pretendeu manter…
Mas os incas não são uma miragem: as dezenas de ruínas de templos e fortalezas que circundam a cidade, demonstram que eles existiram e tinham talentos inatos e uma espiritualidade intensa.
Subjugados, dedicaram-se a pintar e a esculpir uma visão andina da arte sacra europeia.
A (as três) catedral (is) de cusco pavoneia-se de um interior de uma riqueza forrada de ouro, prata, madeiras preciosas e pedra mármore como nenhuma catedral espanhola, mas sempre com um toque artístico andino…
É certamente a única catedral do mundo em que a magnífica tela da última ceia de cristo, serve porquinho-da-índia – um petisco absolutamente peruano – como repasto principal
A vontade espanhola de apagar os vestígios dos ídolos pagãos e a submissa vontade de vingança dos incas, criaram algo de muito singular, rico e esplendoroso.
Cusco, espanha por cima, incas nas entranhas!



segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Finalmente os vestígios do Império - a caminho de Cusco



O templo de Wiracocha marca a nossa entrada na terra dos incas.
Wiracocha é o deus dos deuses, uma crença que apenas os barbudos mal cheirosos desprezaram.
A caminho de Cusco, a descer para o vale sagrado, embalamos nas histórias do nosso guia, um inca cusquenho convicto que não admitirá nunca que ponhamos em causa a superioridade de um povo, um estado e um deus, cuja principal razão da sua existência era alimentar o seu povo.
E conquistá-lo, diria eu!
Eles não queriam a roda, porque não lhes servia…
Eles não tinham escrita, mas tinham uma forma de comunicar, que os barbudos liquidaram.
Falou-nos e mostrou-nos as qolqas (armazéns de mantimentos pertencentes ao estado inca), os templos, os círculos perfeitos e a simetria das paredes inclinadas como as pernas dos humanos.
Mas os barbudos, tudo levaram, o ouro e as estátuas.
A primeira das vitórias da história do capitalismo selvagem sobre o socialismo humanista.
Nas ruínas gastas do deus maior, vagueiam anciões que não parecem ter outro destino que se acomodarem nas sombras de um império que não conheceram, mas de quem se sentem filhos, e relembram-nos quão perecível é a natureza humana, tal como os impérios por eles erigidos.


A imagem do casal de idosos sob a sombra de uma qualquer árvore nativa, de nome indecifrável, ele a nível superior sentado numa pedra milenar, ela subalternizada no chão poeirento de uma terra que já foi fértil, resgata-nos da nossa fascinação por uma civilização, que afinal ainda tem ruínas em pé, para uma existência de fé, pobreza e sofrimento.
Católicos, apostólicos e andinos.
Um pouco adiante, como se fosse numa ordem cronológica pré definida (mais próximo da grande capital e o poder dos colonizadores torna-se ostensivo) em Andahuaylillas, perto do nada e longe das rotas andinas, descobrimos a capela sistina dos Andes, uma verdadeira extravagância de ouro e preciosidades, frescos e pinturas, um verdadeiro teatro de experimentação dos novos (e convertidos) artistas da escola de cusco, que releva a pintura europeia do século XV, numa nova dimensão indígena.
Aqui, tal como no Colca, os santos vestem luvas e cachecóis (porque a igreja é fria), e são humanos que sentem, numa crença quase pagã em que colonizados e colonizadores se fundem em vontades distintas, mas convergentes.
Afinal de contas o dia de S.João coincide com a data do solstício de inverno – mágico para os incas e seus rituais de adoração ao deus sol – a cruz de cristo, simboliza o cruzeiro do sul, uma referência astronómica dos adoradores das estrelas e do céu.
Tudo tem uma explicação, tudo se enquadra numa civilização que, pela ausência de registos, convive bem com a lenda e com as interpretações arrojadas da sua história.
Hoje, católicos, apostólicos e andinos!


Chegámos a Cusco ao fim da tarde mas vínhamos do vale e falhámos a entrada triunfal, qual Pizarro, sem vista aérea sobre os tesouros do Império.
Antes, submergimos numa qualquer periferia anárquica e precária que nos desagua diretamente no centro histórico.
É sempre triste uma frustração à chegada, para quem já se imaginava cronista do reino.
No restaurante Marcelo Batata, jantamos o profundo Perú e, levantando a cabeça deparamos com uma frase inscrita nas paredes deste espaço incomum:
“O nosso medo mais profundo é que tenhamos um poder desmedido” – Nelson Mandela
Quem diria, em Cusco!
Depois de vários copos de vinho peruano, acho que faz todo o sentido.

domingo, 28 de outubro de 2012

Titicaca – Existem oceanos bem acima do nível do mar!


O lago Titicaca é a origem de todos os povos andinos – dizem-nos!
Um enorme depósito de água doce (eu era capaz de jurar que tal extensão teria algo de salgado) a 3,800 metros de altitude, rodeado de picos gelados, desertos secos e tórridos, é motivo que explica (per si) o seu papel civilizacional.
Hoje sobram comunidades que vêm o lago como se fosse o oceano pacífico, tamanha a sua distância do mundo costeiro e cosmopolita. Comunidades que se banqueteiam de turistas que procuram os últimos mundos perdidos…
Mas, para além do folclore dispendioso, os Uros vivem mesmo em casas flutuantes e, mesmo que o artesanato não seja deles, viver dentro de um lago é … estranho!



E nas margens e nas ilhas do lago, é a terra que os alimenta – e não nós.
Mas quem manda no lago, nas margens e nos montes bolivianos, lá longe a oriente, são os Aimaras: dois milhões à volta do lago, quatro milhões no altiplano.
Derrotados pelos incas, hoje falam num país novo e até já têm um presidente, o boliviano (de acaso) Morales.
Hoje de manhã, quando saímos no bote de 13 nós, lago adentro – jumento capaz de transformar um lago num mar, também para nós, marinheiros – vimos sobretudo um azul profundo do céu e da água, tão profundo que dói.
Não sei se é da altitude, ou da forma como a altitude nos enlouquece com as histórias de lendas sobre as origens e os povos desta mãe andina, mas as cores são tão profundas quanto duais: azul-escuro da água e branco do céu e dos montes bolivianos da cordilheira oriental, azul claro de céu e cor de terra árida do altiplano.
A manhã dócil e a tarde ventosa e ondulada…
Lenda ou História não escrita – e portanto eventualmente real – estas são as cores do mistério.
Mistério!
Esta é a sensação repetida desde que subimos acima dos três mil metros.
Mistério e civilizações que adoravam a natureza.
Visitada a esta distância, não vejo como eles não poderiam deixar de ter razão!


El Condor passa (por aqui)



O silêncio da madrugada feita manhã no vale do Colca, recorda-nos que acordámos nas entranhas dos Andes, nas entranhas do mundo!
É um vale que se transforma em Canyon à medida que o rio resvala para o Pacífico e que nos conduz dos ondulados e férteis vales para as paredes abruptas de rocha em vinte quilómetros.
1,300 metros debruçados para baixo, numa visão alucinante, à espera que o condor passe.
E o(s) condor(es) passa(m), tarde para a hora marcada, mas plana ao ar sobre as nossas cabeças e eleva-se ao sabor da temperatura que sobe!




Três metros de imponência entre duas asas abertas, revelam-nos o seu estatuto sagrado, entre os deuses da natureza e a religiosa dicotomia do sagrado inca.
É uma singular combinação de elementos: céu, sol, montanha, rio e o condor.
Nas entranhas do mundo, é garantia suficiente de termos conquistado a eternidade, a vida do nível superior nas asas do condor.
Chichinito, tanto quanto é possível entender a camponesa que nos pede boleia, à beira da estrada, de regresso a Maca, uma das dezasseis aldeias do vale, perfiladas a par, frente a frente dos dois lados do rio, em que os espanhóis acantonaram os indígenas do vale, após a conquista, cada uma com a sua muy católica, branca e singela igreja, cujo único inimigo são os terramotos que as abatem como cavalos (apenas um trocadilho básico e rafeiro com os cavalos também se abatem, despropositado porque aqui há poucos cavalos e tanto quanto nos apercebemos, não se abatem).



Mas a camponesa tinha medo do Chichinito, um duende (mau, apressou-se a acrescentar) que por ali vagueava, especialmente dentro daquele túnel, toscamente escavado na rocha, que servia de passagem a todos os veículos (e camponeses), por entre uma nuvem de pó e escuridão (atravessar aquele lugar dantesco a pé, no meio do pó, da escuridão e dos muitos veículos, seria para mim razão mais do que suficiente para acreditar em duendes maus).
Nunca o tinha visto (ela) mas o marido, esse sim senhor já se tinha cruzado com ele, onde, no túnel, claro, pudera, digo eu!
Aborda os aldeões e propõe-lhes trocar o seu corpo por plata.
Muy malo!
E sempre que um turista tomba fulminado pelo mal de altitude, sob a forma de ataque cardíaco, então o povoado sabe que o Chichinito anda por perto e enganou mais uma alma desatenta (ou gananciosa, digo eu)
De regresso a Chivay, percebemos que não é apenas a alpaca que se come, em forma de guisado…
Rebobinámos a altitude, os vulcões, os lamas e os pastos, as zonas húmidas da reserva natural e subimos, subimos até ao altiplano que nos levaria, ao longo de horas sem fio, até ao outro lado da fronteira, por entre lagoas e flamingos, aproveitando a luz amarela do fim do dia, para mentalmente fotografar a paisagem dourada,da cordilheira oriental dos vulcões até ao lago Titicaca, derramado aos pés da cordilheira ocidental deste pedaço impressionante de mundo, chamados Andes.
Absolutamente rebentados pela altitude e pelas milhas voadas hoje, aterrámos, aterrados pela música andina que berrava lá fora, cá dentro, nas margens do lago Titicaca, pés secos e cérebro encharcado de mal de altitude.
Preferimos pensar que eram arrepios de excessivas sensações fortes para um homem só
O meu último suspiro foi para o condor, para os flamingos, para os patos do altiplano e todas as almas voadoras que fustigavam os céus desta terra de fronteira natural: o altiplano ter-me-á respondido com um trovão, que incendiou o lago e me desligou os fusíveis!
Terei sonhado?
A meio da noite, chamada madrugada, dei por mim acordado e combalido a olhar para a janela, e tive a certeza que nada disto era um sonho!

sábado, 27 de outubro de 2012

Altiplano – A natureza em estado sólido



 Entre cordilheiras só sobrevivem a altitude e imensidão dos elementos.
Imagens de um dia bem acima dos 4,000 metros que foi esgotando a nossa energia, quilometro após quilometro (em altura e em distância) em visões que alternavam entre o lunar surreal e os nevados vulcões sagrados das civilizações pré-incas
As imagens confundem-se com os sons andinos que, no silêncio de uma estepe de montanha sagrada, irrompem na nossa memória em flautas e violas, porque o criador deste filme panorâmico imaginou-o com banda sonora
Os picos gelados têm som, cheiro e paladar…
Pura magia dos (todos) sentidos!
A 4,900 metros, atingimos o cume da nossa existência breve, Patapampa reserva-nos esse troféu numa varanda de oxigénio debruçada sobre os vulcões, oito magníficos espécimes que nos rodeiam, a nós e aos milhares de oferendas à deusa da montanha, feitas de pedra
Pedra sobre pedra, perdemos o fôlego, mas preferimos pensar que a magia é mais forte que o mal de altitude…
Hualka Hualka, Ampato, Sabancaya, Chachani, Misti, Picchu Picchu e Mismi
Tudo isso!
Arrepio, mas preferimos pensar que a comoção (comunhão com a natureza e a presença aos pés – melhor, joelhos – da energia sagrada dos montes brancos) é mais forte que o frio andino que nos varre
Visões de uma natureza sagrada.
Aterrámos no fértil vale do colca dos terrenos cultivados em socalcos, varandas de pedra com uma diversidade de culturas, própria de quem aprendeu a sobreviver, muitos anos antes de os espanhóis terem chegado.
O império do milho e do têxtil do seu próprio gado: os lamas as alpacas, as vicunhas e os guanacos e alternado entre os domésticos e os selvagens.
Em Chivay – depois do altiplano, o vale – entendemos que a alpaca também se come, e que o guisado é, afinal de contas, apenas um guisado!
Aconchego carnal de um estômago colado à desoladora beleza do altiplano.
(num lapso de segundo, fiquei com a mesma sensação da criança que se apercebe que o fofinho coelho também se come, apenas um lapso de segundo)
Na capital da província, aterra também o vale, o mercado lembra-nos que para lá do altiplano mora gente, e uma diversidade surpreendente de gente e de agricultura.



E sempre a trilogia Deus (agora o católico plantado na praça de armas – sim, outra vez), natureza (elementos) e sobrevivência (o mercado, a terra e os animais)
O banho de águas quentes e termais, noite dentro e no vale (agora mais) profundo, consagrou a comunhão entre nós, humanos, e os deuses da montanha.
Mas àquela hora não havia virgens para sacrificar, nem sacerdotes que nos encomendassem aos deuses dos cumes gelados
Que os deuses da natureza nos perdoem e não nos lancem a sua ira!

sábado, 24 de julho de 2010

Menorca - a via alternativa



Menorca tem a dimensão apropriada para quem não tem uma ansiedade excessiva; gente que não transborda nunca para o nosso espaço vital, praias que fecham quando o parqueamento se esgota, cidades de dimensão e rosto com perfil humano, um campo que cheira a estrume, catorze mil quilómetros de muros de pedra, centenas de aldeias pré-históricas, uma civilização que vivia murada à beira-mar, nos montes quebra pernas e um mar de olhos verdes tão profundos que desassossega a alma de qualquer náufrago de terra firme!



Calas é um código de honra, com vontade própria e uns areais que nos destroem a iniciativa, aqui tão perto mas tão longe, que nos transtornam os sonhos de urbanos em baías de refúgio do Bom Selvagem, desnudadas de impressões digitais, impregnadas de paraíso, águas cálidas e pinheiros do Império Romano…quem disse que os romanos são loucos?



Calas é Menorca, razão que sobra para que acreditemos…grandes para quê?

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

S. Pedro (Perro) de Atacama – o deserto das estrelas


S. Pedro, uma terra de mochileiros, tão diferentes entre eles, mas tão vivos e presentes.
Alguns são apenas revivalistas da mochila, sedentos absolutos do conforto e do bem-estar, no centro de uma verdadeira aventura, remotas latitudes, exóticas referências!
Como Calafate, Cahuita e Canoa Quebrada, icons (presentes, passados, futuros?) dos viajantes solidá(tá)rios, um regresso às origens ou a expiação colectiva das suas inquietações burguesas ou solidões profundas.
Na praça da igreja, um largo do coreto tão recôndito como familiar, a aldeia reinventada no sopé dos andes, passeia-se ao fim da tarde e prepara-se o cinema ao ar livre.
Cine Paradiso na noite fresca de S. Pedro.
Caracoles ao anoitecer é o centro da diversidade, onde se reúnem os contadores de histórias do mundo inteiro à volta de um braseiro, os viajantes são assim, mesclam experiências e são apenas pescadores de sensações com uma contextualização pouco precisa.
Chegam e partem dos cumes e dos vales; uma aventura em ambiente controlado!
Impossível de definir um padrão, uma origem, porque não há uma fronteira social entre os autóctones e os forasteiros.
Apenas na fisionomia andina…alguns!
Sente-se ainda no ar os cheiros e as sensações de uma última fronteira.
A Bolívia é já ali ao lado, por detrás do Licancabur, 45 quilómetros de encosta íngreme, uma estrada que se adivinha esburacada sem controlo de fronteira. Ninguém quer ir para lá! – Dizem eles
Argentina, um pouco mais a sul, Paraguai, em entreposto para chegar ao Brasil!
A música andina entope a rua, construída de sal e areia, intermitentemente iluminada por candeeiros amarelos, homenagem às cores do deserto, um suave contraste com o barro das cercas, das paredes e dos pátios, heranças de influências múltiplas:
Andes, deserto e colonização espanhola.
A noite é curta no deserto e a Via láctea é o lençol iluminado (a nuvem?) que nos fecha os olhos!
Géisers e fumarolas a 4,300 metros.
Acordados desde as quatro da manhã, tivemos saudades das furnas dos Açores.
A actividade geotérmica estava dormente, porque a temperatura do ar era demasiado alta…diziam eles!
3º Graus é muito calor – dizem eles
Uns fumitos e uma aguazita a espirrar.
Não ousamos troçar da natureza no seu estado puro, mas aquele banho matinal nas águas quentes (e sabe-se lá mais o quê) das termas de margens lamacentas sofre de tendências depressivas, multidão de cabeças espetadas no vapor e flutuando sobre as sombras da água, no limite da indecisão entre o riso e o choro.



Os fatos de banho ancien regime deviam ser proibidos, porque interferem com a vida selvagem!
Agora entendemos porque é que o pico que circunda o vale geotérmico se chama choro do avô!
Pobre avô!
A descida pelas encostas, montanhas abaixo, tão deserto, riachos cheios de verde, pontes que não existem.





Uma aldeia recôndita, sem nome que deixe recordação ou lembrança!
Uma fotografia do lama bebé órfão que bebia biberão custou 1000 pesos.
Afinal o lama não era órfão, mas a igreja era linda!
O intervalo da aventura do dia, chama-se sopa de beterraba fria, de frente para o Licancadur, sala de almoço no Tierra Atacama, arquitectura minimalista, sem traves mestras, só vidro, paisagem e vulcão.
O mais famoso dos vulcões.
O vale da Muerte (que devia ser Marte se não fosse um equívoco linguístico) é o princípio da última experiência de deserto.
A primeira verdadeira experiência do deserto no seu estado natural: absoluto inóspito.
Gargantas profundas esculpidas pelas águas, gelo, vento, lava e sedimentos, montanhas esculpidas de areia e sal, encostas arenosas que escorregam só de olhar, formas bizarras esculpidas no ar e na terra…
O Vale da Lua!

Dizem que é o lugar mais seco do mundo. Dizem!
Sublime a não cor, a forma da lua nas rochas, um arrepio na cordilheira dorsal …
Nossa ou do deserto?
Inesquecível a versão Atacamenha da Lua.
Começam a juntar-se os adoradores do Sol Poente, dançarinos da areia e do monte, adivinham-se os pés descalços e as plantas alucinogénicas, capazes de tatuar (sem possibilidade de remoção) as cores do Sol a despedir-se das montanhas, dos vales …
…oásis, vulcões, lagos salgados e…areia!
Pôr-do-Sol no deserto!
Andes pintado de tons laranja que mudam a cada momento, a cada ângulo.
Oásis de S.Pedro deita-se no planalto e o deserto capricha em formas e cores, amarelo, laranja e tons desconhecidos, porque não os há noutros lugares.
Deserto é vida!
Deserto é extremo!
Inenarrável a despedida do Imperador dos elementos!
Causará danos irreparáveis nas partes mais sensíveis do cérebro?


Atacama – o deserto das estrelas


O céu que cega os sentidos, é a primeira sensação do deserto.
Via Láctea, as Três-Marias…
Os camiões sulcam o deserto que se pressente na escuridão, e pressentem-se as maiores minas de cobre do mundo.
A chegada à cordilheira dos Andes é visível a quilómetros, pelos vultos luminosos que se confundem com as estrelas dos alucinantes monstros do asfalto…
E a distância entre os portos do Pacífico e as grandes metrópoles do interior Atlântico, torneando as cordilheiras, afrontando os cumes dos vulcões extintos
Bolívia, Paraguai, Peru e Argentina, refazendo as áridas rotas de Pedro de Valdívia.
São as novas fronteiras que se cruzam no Atacama!
O deserto em movimento, dominado pelos faróis da estrada e pelas estrelas do céu.
Depois, vem o silêncio; o deserto longe da estrada.
E no fecho da trilogia dos sentidos, o cheiro: a seco, perfumado e (particularidade deste deserto) a vento, 2,200 metros de altitude ventosa e resfriada.

De manhã, nasce um outro deserto.
Quente, vermelho, os vulcões que assomam do cimo das fronteiras, imensidão que se vê, as distâncias que não se entendem.
Tão perto (que parece), tão longe (que é).
Miragem indiscutível
Acordar com o vulcão Licancabur aos pés da cama!
Inactivo, mas com 6,000 metros de imponência, num absoluto contraste ente a terra de cor indecisa e o céu de um azul que não é cor de mortais!
O oásis dilui-se progressivamente no asfalto intermitente, nos muros altos que bordejam as árvores frondosas, os rios subterrâneos, primeiro, substituídos por arbustos, depois por umas penugens secas, tão inóspitas quanto o horizonte, por fim pedras e areia cinzenta.
Oásis, deserto, bosque inacabado, oásis Toconao.
Tudo o que se imagina num oásis: uma igreja – missionários que não se detinham na sua missão evangelizadora, pela ausência de crentes – pó que se entranha na vegetação que ousou nascer, um repositório de todo o lixo que o deserto rejeitou, uma luta que se vislumbra entre a civilização e as forças da natureza.
Um lama no curral e uma cabra que se passeia no banco de jardim, patas atadas por precaução de quem as conhece.





Mas tem gente; brinquedos esquecidos no quintal da senhora de idade, um tear que se prepara para trabalhar e a velhota da loja dos souvenirs, também dona do lama, da cabra e provavelmente das crianças que abandonaram o quintal, em defesa da sobrevivência do negócio.
É um cenário de purgatório geográfico e humano.
Antes do deserto que não tardou a afirmar-se como dono do planalto.


Salar de Atacama: uma imensidão de caprichos da natureza (ou o fascínio pela obra da criação e transformação do mundo), o terceiro maior lago salgado do mundo, o coração do deserto nas alturas, afinal o deserto tem vida
Flamingos, os donos dos pequenos lagos do Salar
A subida para as lagoas altiplanas, faz-se de medo das alturas e de transição de estado…o deserto que se perde nos cumes da cordilheira continental, simplesmente Andes!
4200 metros de altitude, lagoas de azul impossível, que competem com o céu e os vulcões.
Dizem que há alguns milhões de anos, a actividade de todos estes vulcões, correspondia a um terramoto de 40º…
Muita animação nos primórdios do mundo.
E ficaram duas lagoas…o vento assopra-nos os sentidos, um bando de vicunhas desce a encosta até ao lago, para matar a sede, um vulcão extinto de 5900 metros de altura vigia a vida animal do lago, do vale e das encostas sobranceiras.

Afinal, parece que o grande explorador dos interiores inóspitos, Pedro de Valdívia, passou apenas no vale e não conheceu este cenário do nosso mundo.
Pena para ele, e uma sede mortífera para os seus comandados que se perderam e reencontraram nos recantos mais secos deste planalto de Atacama.
Um problema de definição de fronteiras?

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Punta Arenas - O outro lado do canal



Punta Arenas é o testemunho de que o Chile é o dono do Estreito da Magalhães.
Sem possibilidade de disputa.



Eles fizeram questão que esta fosse uma sinóptica lição de História.
Na fronteira do estreito e do país!
Os factos revelam a apetência pelo Sul, a vista do morro Norte desvenda uma ambição traçada em avenidas largas e desenhos geométricos.



Uma colonização precoce, famílias poderosas, casamentos de conveniência, fortunas colossais feitas com o ouro branco – a lã dos carneiros do Sul!
O português José Nogueira que não resistiu ao apelo do estreito, enriqueceu e casou com a Diva, Sara Braun
O regresso do espírito português ao estreito…o fascínio pelas terras frias, encontro de mares e de trajectos!
Sara Braun, a benfeitora, adoptou a dois terços da Terra do Fogo como se fosse riqueza de berço, construiu o seu palácio para a posteridade e ofereceu a si própria a porta para a eternidade.



O cemitério de Punta Arenas é a prova da riqueza vivida: alamedas sumptuosas, ultimas residências de pedra trabalhada.


Ironia que este seja o museu vivo do espírito de conquista do inóspito!
Irónico e um pouco desconfortável.
Mas também a diversidade cultural de um povo de imigrantes, que aqui descobriam o fim da linha.
Na cidade e no estreito!
La Luna é um momento zen na fronteira do estreito.


Mensagens de postais ilustrados, dos viajantes que gostam de deixar troféus e bilhetes em todos os confins, ou onde lhes seja permitido.
Uma eslava almoçava sozinha junto à janela
Almoçava, escrevia bilhetes, e complicava as referências geográficas.
Ela não era daqui.
- Todos nós temos amigos com apelidos croatas, croatas imigrantes que fugiam do conflito dos Balcãs, com data 1ª guerra mundial
Afinal era de cá
Pareceu-me que não falava dialecto local
Viajante à procura das origens?
A lua nascia sob a forma de candelabros, posters azuis e amarelos.
O restaurante enchia-se, perdia o silêncio mas conservava o teor multicultural.
A eslava esperava o par!
A língua espanhola traiu a nossa dúvida.
Croata – concluiria algumas horas mais tarde
O único povo imigrante com direito a monumento na cidade.
Sobreviveu a Tito – o Marechal – a uma guerra civil e a muitos anos de não afirmação da diferença entre expressões de nacionalismo balcânico.

Mas…
O ouro branco que se transformou simplesmente em lã
O canal do Panamá que destruiu as rotas épicas e a aventura
A vitória da engenharia sobre os pântanos
Os indígenas absolutamente extintos
Hoje…
A cidade vive da distância, da inevitabilidade de ser periférico,
Um destino que não é fado, é o outro lado do óbvio!
É uma reputação que perpetua o fascínio das rotas quase incólumes, o dom da natureza e do desafio à coragem humana…
Também é possível viver assim!




Quando partimos para Norte, recordo-me do símbolo do Sol Nascente, atracado no estreito, atrás do Via Australis.
E entendi porque a baleia solitária da madrugada anterior, se manteve tão à distância…não teve tempo de verificar as cores da bandeira!
Boa sorte, mamífero (quem tem coragem de lhe chamar selvagem?), porque os predadores andam por perto!
E a Patagónia desvanece-se a Sul, no horizonte azul e frio
Paragens do outro mundo!