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sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

E...Viva o México, segundo Ixca Cienfuegos

 

Afinal o México acaba.
Pelo menos para nós, que partimos!
Do fundo do cenote de Xkeken, flutuamos no rio subterrâneo que percorre as profundezas do Yucatan, ao que consta resultado da queda de um meteorito que extinguiu os dinossauros e deixou esta terra com milhares de buracos que descobriram rios, outrora escondidos no infra mundo.
E olhamos para cima, nós e os morcegos, e vislumbramos um céu azul e dezenas de raízes a tombar pela terra abaixo.
Seria a nossa última visão do México, se não tivéssemos de regressar à superfície para voltar a casa.
E alguém disse que, se calhar, tinha valido a pena extinguir os dinossauros, para isto.
Para quem flutuava nos cenotes, era uma heresia genuína e, sei lá porquê, só me lembrei de kundera, na sua insustentável leveza do ser.
Em Valladolid acabou a imersão de México, muito apropriadamente nas profundezas do México em sentido literal.
Mas, porque a imersão mexicana vive-se na rua, voltámos às esquinas da cidade onde se pode comer uma sandes de leitão por quarenta e cinco pesos, uma espécie de roulottes que constroem sandes enquanto os condutores esperam pelo semáforo verde, tudo muito dinâmico, há bancos para sentar, balcão para encostar, take away entregue no veículo em andamento e nem os detritos despejados do telhado retiram a motivação que reina na esquina da calle 41 com a calle 44.
E, de sandes de leitão na boca, percebemos que, afinal o México sempre acaba, um dia.
Mesmo depois de uma alegada propina paga à guarda nacional - o visado nega, o colega suspeita - para um perdão de multa por excesso de passageiros a bordo do veículo que nos transportava, eles nunca estão aqui, argumentava o colega, mas afinal estavam hoje, azar ou afinal de contas uma sorte de ter sido perdoado, ou talvez não, apenas o acaso.
Afinal ninguém foi preso e o México não quer acabar mesmo.



No dia anterior, tínhamos visitado a maravilha do mundo maia, mas ontem demasiados como nós tiveram a mesma ideia - mas ao que consta é sempre assim, não é uma questão de sorte - e o esplendor do local perde-se na relva e nos ruidosos turistas que, ao contrário dos de Palenque, não tinham visitado o grande museu maia no dia anterior, e tinham gasto uma parte importante das doze horas de imersão mexicana, que lhes foi prometida,  no autocarro que os trouxe das praias da Riviera maia.
E, por isso, em vez de se deslumbrarem em silêncio diante a pirâmide quetzal, interiorizando a energia que podia emanar do local, enchem o ar de inconveniências que quase destroem a magia de Chichen Itza, a maior cidade do lado mexicano dos maias.
O resto da magia sobrevivente foi então tragada pelos milhares de vendedores ambulantes que entupiam os caminhos e conseguiam esconder os vestígios arqueológicos menos exuberantes, os que, apesar da selva e do esquecimento humano, ainda arranhavam a superfície do sitio arqueológico.
Mas não podíamos deixar de vir, alguém lembrou, por causa da pirâmide, do templo dos guerreiros, da praça das mil colunas, do grande jogo da pelota, da plataforma dos crânios, do templo superior dos jaguares, do caracol do observatório ou do conjunto das monjas, o que faz de Chichen Itza um lugar onde até os mitos comprovam a existência de um passado que deixou raízes que explicam porque é que tanta gente ainda fala dialetos maias no Yucatan.
E enquanto o António, o guia local,  construía a narrativa animada e pintava as cores do que terá acontecido no local, como os rituais que precediam as grandes epopeias, a adoração a Ek Chouah, o Deus do cacau e o protetor dos comerciantes, rituais antes e os sacrifícios apenas depois, a única forma de agradecimento e apaziguamento dos deuses, nós imaginamos o que seria o estádio de pelota cheio - e o estádio de Chichen itza é enorme - o Conselho de nobres intelectuais e religiosos a sul, a norte os guerreiros, o rei na casa do jaguar e os burgueses nas bancadas laterais, e só havia um jogo sagrado, em cada 52 anos, quando o  calendário solar de 260 dias e o lunar de 365 dias se encontram e era um fim de um ciclo. 
Assim os festejos deviam ser especiais, um jogo de pelota, sete contra sete, os melhores contra os melhores e, no fim, o melhor era sacrificado e assim acalmava os deuses  que, ficando contentes, seriam generosos para o ciclo seguinte.
O sacrifício era voluntário e o escolhido era decapitado por um jogador da equipa derrotada, uma honra para os escolhidos, porque para os deuses só servia o melhor.
Mas, porque os Maias eram civilizados, eles tinham de controlar o tempo, e por isso desenvolveram um calendário ligado às culturas e a astronomia e o controlo do tempo pelo calendário leva à prosperidade das sociedades sedentárias, através do desenvolvimento da agricultura.
E, à medida que o António se entusiasma com o que sabe e com o que perguntamos, deixamos de ouvir os sons da ignorância e da soberba contemporânea e imaginamos o mundo maia em todo o seu esplendor e contradições.
Sim, afinal tínhamos mesmo de vir!
Em Valhadolid,  provam-se doces de mel e nutella, temperos de chili e mel, rezam-se terços de janelas abertas para a rua, na Calzada dos Frailes, enquanto os turistas da Riviera maia desembocavam dos autocarros na praça principal, às centenas, ainda receosos, hesitantes, para a parte dois das suas doze horas de imersão no profundo mundo mexicano, mas não arranharam mais do que apenas uma das muitas camadas com que se veste este povo.
Na primeira noite na Cidade do México, descobrimos, entr
e as paredes escuras da cidade adormecida. um painel de azulejos, colado numa esquina do centro histórico com um excerto do livro “La region más transparente” do escritor e diplomata mexicano Carlos Fuentes de 1958.
Só hoje, consegui encontrar uma forma de o traduzir para a realidade do mundo deles:
" O meu nome é Ixca Cienfuegos, nasci e vivi na Cidade do México. Isso não é grave. No México não há tragédia. Tudo se torna uma afronta.
Afronta, este sangue que se queima como a ponta de um agave ( planta suculenta, matéria prima da tequila)
Afronta, minha paralisia desenfreada que coagula a cada amanhecer. E o meu eterno salto mortal até ao amanhã.
Jogo, ação e fé do dia a dia, não só nos dias de recompensa ou de castigo: vejo os meus poros escuros e sei que serão proibidos lá em baixo, no fundo do vale."
Viva o México porque ele nunca acaba.
Tenho a certeza!




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