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domingo, 22 de julho de 2012

Firenze - Pura Magia!


Tudo se passa na imagem desfocada que desfila por detrás do teu close-up.
(Sim, a máquina fotográfica adquiriu vontade própria com o pôr-do-sol de Florença na esplanada da Piazza, e eu distraí-me com as imagens de fundo, tão levemente desfocadas como inesperadas na cidade de todos os visitantes)

Piazza Santo Spirito, um não destino em Oltrano, o outro lado do rio.
Finalmente houve tempo para descansar a vista sobre a vida dos outros, os florentinos a passear os cães na praça em horas de conversa imaginada com as bicicletas na mão e o banco de jardim sob as pernas em particular, e o corpo em geral, os copos que baloiçam ao ar, gargalhadas súbitas ou amenos sussurros, conforme os figurantes e a atenção (dispersa) do nosso olhar.
Oito da noite e o vento é uma bênção continental (apenina ou mediterrânica), antagónica do infernal vento atlântico do nosso julho.
Os 37 graus à sombra sufocavam a tarde, que vagueou por entre os tesouros de uma época em que os Homens sonharam para além do que esperavam deles, planeando catedrais e palácios, decorando abóbodas com frescos magníficos, construindo uma cidade, um museu e uma montra de arte humana que se revela hoje absolutamente intemporal.
Uma cidade à escala humana, onde coexistem os ofícios, os cheiros e o espírito mercantilista dos seus habitantes.

(E a cidade resiste a uma prole de invasores que não para de crescer. Antes eram só os europeus, os japoneses e os americanos. Hoje são também os outros europeus, os russos, os chineses e os indianos, atrás do fascínio da história e da arte do coração cultural da renascença europeia)


E a magia ficou, paira no ar quente de verão, sentem-se os espíritos (fantasmas) benignos de quem a criou (a cidade) nas ruas amarelas e nos edifícios castanhos (sim, em Florença dominam as cores torradas), nos inesperados torreões e nas óbvias fontes de água fria, na ponte, na praça e no palácio, símbolos de uma capital, que já foi!
Os espíritos sabem que não há igual, por isso sobrevoam (ano após ano) as calçadas desta urbe, numa atmosfera que aquece à noite, inspirando todos os que se sentem artistas e se instalam neste palco permanente lançando fogo no ar, mesclando a arte moderna e a música contemporânea com os cenários imaginados pelos coreógrafos do segundo milénio, atentos a todos os pormenores, em sucessivas sintonias e ângulos vivos, apenas ao alcance de mentes e mãos visionárias.
Florença não se devora, aspira-se, aproveitando as correntes de ar quente que atravessam as varandas medievais que a renascença tornou imortais, os focos de luz que podiam ser archotes e que realçam as sombras (as nossas ou dos fantasmas criadores) que agora pululam entre os visitantes aturdidos pelo som, pelas luzes e pelos cheiros que emanam das pedras coçadas que nos envolvem.
Sim, Florença aspira-se e ela (de forma ardilosa) nos envolve, fazendo sair os génios em catadupa da lâmpada de Aladino.
Da sua, da nossa e da deles!

(A música e as vozes dos sopranos elevam-se (abraçam) no torreão do palácio Vecchio)

Um festival de sentidos!
Em trinta anos de existência errante e curiosa apenas os rostos mudaram mas os olhares, embevecidos pela noite quente, são os mesmos.
Provavelmente os rostos (como o meu) também são os mesmos, envelhecidos pelo tempo, desesperadamente à procura de uma cura duradoura de rejuvenescimento.
Êxtase e admiração, um espaço de encontro de (cada vez mais) culturas, abençoado pelo génio dos mestres!


terça-feira, 3 de julho de 2012

Feira do Amor Cigano


Cheira intensamente a farturas e coiratos que assam ao vento, numa brisa que percorre o vale e atiça as cinzas.
Este é o ambiente da feira, popular mas urbana, um retorno à charanga e ao fado que desafina na rusticidade que se entranha nos tempos modernos e a desvanece.
Salomão enlouquece com a dialética faduncho que exala do coreto, ziguezagueia entre um povo derretido pelas origens, ignora os roufenhos anúncios que exalam dos megafones saudosistas, intemporais de tão velhos
“Vulcanizadora Trovão, Oculista Caixinhas, uma caixa de óculos que relampeja nas noites de tempestade”
e procura desesperadamente a Deusa do Amor cigano, entre a barraca dos matraquilhos e as estacas da barraca dos sapatos e o carrossel do dragão – sim e o cheiro a farturas e o sabor a coiratos –
Amores vagamente clandestinos!
Salomão, como Sandosh ou Faisal apaixonou-se por uma intocável, uma nómada irreversível que apregoa por toalhões sem origem nem destino, a cavalo de uma Transit de 1978, num despudor confuso entre a sensualidade agressiva e os objetivos (a sobrevivência) de venda.
É uma paixão de acne e de Verão, seduziu-o a voz quase grosseira, o turbante que enfeitava os adereços prateados que lhe faziam brilhar os generosos peitos e, quem sabe especialmente, os olhos penetrantes e pretos, perfurantes como o céu estrelado, tão profundos como uma teia envelhecida…e o Salomão, Sandosh ou Faisal sentia-se um inseto insignificante e impotente.
Já não se lembrava do quando!
Mas não podia ter sido há muito tempo; a feira instalara arraiais há apenas três dias!
Ou terá sido noutro local, noutra festa e noutro Santo?
Ele corria avenida abaixo, vielas acima, praça à volta, atrás de um boato, de uma sensação (de um anúncio enrolado pelo gramofone pendurado entre as árvores)
“O arraial levantara amarras, as carrinhas e as tendas, a feira partira antes do tempo para outo lugar”
E ele que amava uma intocável, acto consumado, tal como Sandosh, já se sentia declarado morto, pelo amor proibido ou por estar em risco de o perder.
Porque ela fugira ou porque os zelosos funcionários municipais não podem tolerar a um munícipe, um amor nómada.
Impossível de recensear, amor de feira, fartura ou coirato, deve ser efémero!
Sem escolha, morto de amor e saudade ou administrativamente inexistente.
Mas a intocável partira mesmo e o Faisal, o Sandosh ou o Salomão – ato consumado na clandestinidade da família (dela) e do burocrata (dele) – apercebeu-se, no desamparado e desolado terreiro da feira, que não lhe conhecia o nome e tinha ficado preso na linha do tempo
Raça, crença ou religião.
Apenas uma poeira esbranquiçada se erguia em redemoinho, impulsionada por uma brisa impertinente que percorria o vale, iluminando o horizonte escuro de uma noite subitamente sem estrelas.
São as festas de Pedro, aqui ou em qualquer lugar


domingo, 1 de julho de 2012

Quinta do Furão, oito da manhã


Quinta do Furão
Oito da manhã no Mar da Madeira
Não há vultos que impeçam o Sol de furar, nuvens que desmoralizem o nascer de um novo dia de Junho
Encontros imediatos do 3º grau numa ilha flutuante à beira de um mar maior!

Ninguém pode sonhar por ti!


A lua esconde-se por detrás do céu azul e as sombras denunciam a presença do usurpador do espaço público.
Sim, só  as sombras o evidenciam da natureza morta que o cerca.
"Ninguém pode sonhar por ti" é um grito de ansiedade do artista que se sente perdido na esquina da vila histórica, numa viela encardida e aposta na comunicação directa.
Ontem grafitti, hoje arte de rua
E a pomba voou!