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terça-feira, 7 de julho de 2026

São Gregório, O Iluminador

 

Para o imaginário comum da nação, a igreja apostólica da Arménia é a guardiã da identidade nacional do povo e da nação e tudo parece ter começado com São Gregório, um príncipe parsa refugiado das invasões parsas, educado na Arménia ocidental, em Cília, e aprisionado pelo seu rei por procurar converter o reino pagão da Arménia oriental, qual vassalo do império persa.
Tiridates de seu nome.
E é verdade que, desde o destino do iluminador, que a fé e a igreja católica foram, em muitos momentos da história da Arménia, o único mínimo denominador comum capaz de identificar o povo, e daí o esforço de se distanciar de Roma e das igrejas ortodoxas de leste.
Porque afinal, a discussão centra-se em torno das duas naturezas de Cristo, o homem e o filho de Deus, sem confusões, sem alterações, sem separação nem divisões, assim sendo uma versão oriental do cristianismo e uma questão meramente semântica ou, como nos contava, ontem, o padre de Kapan, uma cisão identitária e nacionalista para unir e defender um povo que raramente foi independente e que, muitas vezes, foi um povo sem terra.
E porque todas as crenças precisam de provas, testemunhas, relíquias e locais de culto, mosteiro de Khor Virap é o santuário da fé cristã Arménia porque foi neste local que o iluminador foi preso pelo rei ( segundo consta por onze anos) e nós descemos ao poço onde o santo foi encarcerado, e espreitamos pelo buraco por onde uma viúva o terá alimentado e tudo é muito visual e por isso somos levados a tomar uma lenda por irrevogável e certamente o santo Gregório converteu o rei vingador porque o curou da sua raiva e o transformou no primeiro reino católico do mundo, logo nos primórdios do século quarto.
E logo um mosteiro que vive no vale fronteiro ao monte Ararat, abençoados pelo sagrado, e salvos do diluvio pelo Homem da arca.



E a rota dos mosteiros desce para sul (enquanto os seculos avançam para o futuro) para Tatev, um mosteiro do seculo nove que se constituiu, no auge da autonomia do reino da Arménia como universidade no seculo doze e terá sobrevivido, muitas vezes ferido, outras vezes isolado, às invasões da ambição e a evangelização muçulmana porque os inimigos procuravam destruir os mosteiros porque sabiam que estes representam a unidade da nação arménia
Assim reza a História da nova (e amputada) Arménia.
Hoje, em Tatev, os padres abençoam-te a alma e o corpo, duas mãos de pão cheio e uma mão cheia na cabeça dos crentes e há nestes locais de uma fé antiga, que preserva as ruínas como um local místico de reflexão (ou uma memória da resistência de uma frente cristã, na fronteira de territórios hostis), e os sinos derrubados pela natureza que serviam de livre-arbítrio entre a paz e a guerra porque chamavam os crentes e avisavam os soldados da chegada dos inimigos.
Nas asas de Tatev (diriam os ateus) mais do que viver uma fé profunda preservam-se os rituais da identidade nacional de um povo e de uma nação. 
Em Khor Virap, em Tatev, em Kapan as pessoas parecem, de facto, cuidar do ritual como se fosse um assunto identitário como se os rituais de fé apostólica fossem capazes de perpetuar a nação Arménia, mesmo depois da pátria extinta.
E quando o ateu comum se comove com a fé dos homens simples, (ou com o ritual da fé dos homens) converte-se a uma espécie de crença humanista que pode nascer dos homens, sem intervenção divina e que impede que nos transformemos numas feras.
E olhando do alto do mosteiro de Tatev para o vale profundo e para o silêncio da natureza em estado puro, sentimo-nos empoderados por uma espécie de crença que te dá asas, (como diriam os crentes profundos) e diz a lenda que o arquiteto do mosteiro se lançou no precipício e pediu asas a Deus.
Não me pareceu estranho ouvir um arquiteto afirmar, no seu último auto de fé, do alto do local que fora a última reserva do saber do auge da monarquia arménia, que agora lia a bíblia e que compreendia a sua sabedoria
Se tivesse vivido no sopé do monte Ararat, abençoado por Noé, o arquiteto talvez tivesse voado.






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