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terça-feira, 7 de julho de 2026

Terras de Fronteira


 Davit Tek foi um herói Arménio do seculo dezoito, um combatente que organizou a resistência contra os invasores persas em diversas fortificações da Arménia oriental.
Mas, tal como na história da sua nação, os heróis da Arménia não são  admirados pelas suas vitorias mas principalmente pela sua perseverança e valentia. 
David Tek é uma aldeia do sul da Arménia, uma península agora incrustada nas novas fronteiras do Azerbaijão, onde outrora viviam mais de cem mil arménios no enclave de Nagorno Karabah.
Em Davit Tek não vivem mais do que setecentos habitantes, porque muitos partiram com a tomada do enclave arménio pelas tropas azeris que lhes cortou a estrada para Goris e aumentou o tempo de viagem para o norte e para a capital em mais de duas horas.
" As ervas cresceram muito nos últimos anos, porque já não há animais a pastar nas encostas" exclama Davit, o filho agricultor da família da Anne, encolhendo os ombros e levantando os braços para o céu, porque ele não quer partir, pelos seus animais e pelo seu pomar.
Em Davit Bek, nasceu Aram Manukyan um ilustre arménio que, durante o extermínio de 1915 ajudou milhares de refugiados e recolheu órfãos vindos de todas as geografias do exilio.
Hoje, na aldeia de Davit Bek, cercada por fronteiras hostis, restam as casernas dos soldados da fronteira, os novos bunkers em construção nos topos dos montes que se cruzam no olhar porque só para ocidente existem terras da mãe Arménia, a poluição do lago com minerais das minas e o contraste entre o verde espalhado pela natureza e o lixo empilhado  nos cursos de água por uma população em suspenso.
A espera da paz ou da guerra, certamente que nem eles sabem bem.
Em Kapan, a capital da província, há uma confrontação de bandeiras na encosta e apenas a bandeira russa os abandonou, uma mediação de conflitos tão venenosa quanto a mineração selvagem de cobre, alumínio e tungsténio a que destinaram a cidade nas últimas décadas.




Em Kapan, sente-se a efemeridade das fronteiras e percebe-se a volatilidade da alma e da independência Arménia, diante do que já perderam ou do que podem ainda perder, especialmente com a ambição azeri (de um novo corredor que pretende ligar o Azerbaijão ao seu enclave junto a fronteira da Turquia) que pode isolar os arménios do seu único vizinho cooperante, o Irão a sul, imagine-se!
Porque a pressão do espaço não protege o tempo da Arménia 
Mas na missa de domingo em Kapan, no dia de eleições em que se espera que ganhe o mesmo, aprendemos que um piquenique com os crentes é apenas um pretexto para juntar as pessoas e conversar e aprendemos também que, na Arménia, os padres casam-se às claras.
Aqui o tempo demora tempo, o tempo que demora a contornar as fronteiras desenhadas pelo poder das armas e das alianças, mas as gentes procuram um novo normal apesar desta Arménia da periferia ser um país de ruínas eternas que a pressa do urgente não permitiu ainda reconstruir.
Mas as empregadas do Panorama, um restaurante muito moderno à procura da reputação perdida, serviam à mesa de luvas brancas e a música nacional Arménia revelava influências celtas indiscutíveis, num surpreendente renascimento do espírito cruzado.
A cidade, sentida no seu amago, agarra-se às indulgências de um domingo nos parques da cidade, gelados e animação juvenil. indiferentes as ruínas da era industrial que os rodeiam enquanto a cidade, vista de cima, esgota-se na tranquilidade de uma tarde de verão e nenhum dos seus problemas nos pareceu, a esta distancia, irreversível.
E no final da noite, apesar da visita dos soldados à casa da Anne, intrigados pela nossa presença nesta aldeia ameaçada pela geopolítica, não houve mais surpresas e o partido do pequeno homem engravatado que faz corações com as mãos, ganhou outra vez



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