Os habitantes da aldeia mais ou menos imaginária de Narite, davam especial importância aos sonhos. Contavam-nos uns aos outros, tentando adivinhar o sentido secreto que neles se escondia.
Averiguavam obrigatoriamente o dia da semana; se fosse Domingo, não havia razões para preocupações porque o sonho domingueiro é oco, não promete nem vaticina nada. Mas é preciso guardar na memória tudo o que vimos em sonho na noite de terça para quarta-feira porque, precisamente na quarta, entre o primeiro e segundo canto do galo, os sonhos trazem presságios.
Nós acordámos na manhã de terça-feira com os pés no lago Sevan, aliviados porque na próxima noite já teremos passado e fronteira para a Geórgia e assim, longe da aldeia da Arménia, os sonhos já não trazem presságios, culpa dos galos que não cantam ou porque, longe daqui, não conseguimos lembrar-nos dos sonhos, sequer.
Nem dos sonhos nem das lendas.
Segundo a lenda, no lugar do lago Sevan, havia uma fonte no pomar onde os habitantes locais iam buscar água e sempre lhes era recomendado que fechassem a torneira da fonte.
Um dia, uma jovem distraiu-se e deixou a torneira aberta, inundou o pomar transformando-o no lago. O ancião da aldeia ficou irado e transformou-a numa pedra que agora está plantada no meio do lago Sevan.
Afinal ainda há lendas de que nos vamos lembrar.
Pelo monte acima e com o lago nas costas, a maioria das casas de Dilijan são pintadas de azul-claro e, como são de madeira, não assustam a floresta e Jan significa querido e esta estância termal que curou o politburo durante décadas é, afinal de contas, o querido Dili.
Nas florestas de Dilijan, os antigos mosteiros entregam-se, em ruínas, à natureza que conquista o seu espaço natural, reduzindo a fé cristã à longínqua memória peregrina, mas no Mosteiro de São Mateus, afinal há vestígios recentes de uma fé incontida nas sombras do mosteiro escondido na floresta, e nós arrastamo-nos pela lama acima, porque a chuva da noite anterior tinha tornado escorregadios os caminhos da crença.
Agora que seguíamos na estrada para a fronteira da Geórgia e a altitude transformava a paisagem em estepe fria, despida e desabitada voltava e lembrar-me das palavras, quase despeitadas, do camarada exilado Vassili "a primeira coisa que vi ao chegar foi pedra" não, não é verdade, meu caro Vassili, e "quando me vim embora trouxe comigo a imagem da pedra" estavas definitivamente deprimido Vassili porque "então parece-me que é o azul do Sevan, os pomares de pessegueiros e as vinhas do vale Ararat, para além da pedra que exprimem o carácter e a alma da terra Arménia porque apenas alguns traços exprimem com maior plenitude o carácter e a alma de um povo " [reinventei- me a mim e à Arménia na negação das palavras do escritor].
E, a cerca de dois mil metros de altura, a Arménia abraça a Geórgia numa fronteira tranquila, não fosse a Geórgia a retaguarda das inquietações arménias e, subitamente, a chuva intensa parou.
Há fronteiras que fervem de agitação porque são o centro de um mundo inteiro que anseia passar mas em Akhalkalaki, uns quilômetros no interior da Geórgia, a casa de câmbios reage com indolência à nossa chegada, um guichet para o interior da loja e outro para a rua, mas não há forasteiros na rua nem uma vontade dos locais em transacionar a moeda local.
Passadas as nossas armas e bagagens, balbuciamos "Georgia on my mind" e o arco iris nasceu na nossa retaguarda, com uma nostalgia muito própria de um povo de exílio e de uma diáspora imensa.
E lembrei-me do velho Aleksei, um homem simples que vivia desterrado nas aldeias do leste, nas montanhas e no inverno nevado que há décadas tinha saltado das páginas do livro de história para a vida real e falava, com amargura, das pessoas não seguirem a lei principal da vida, a compaixão
E nem os brindes Georgios, uma cascata de vinho e vodka na noite de Vardzia, nos fez esquecer a essência do sofrimento da Arménia, em hora de despedida.

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