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quinta-feira, 9 de julho de 2026

Caravensarai de Selin

 


De manhã, a fronteira e os seus fantasmas foram deixados para trás pela nossa sensibilidade cristã, mas a nossa confiança nos guardiões da arca de Noé parecia-nos ilimitada, agora que tínhamos partilhado com os soldados arménios da fronteira um guisado de carne e um copo de vodka no piquenique junto às cataratas Shaki.
Na vontade de cruzarem as suas próprias fronteiras, transportavam uma enternecedora timidez, carregada de olhares furtivos, sempre a aguardar a primeira mão, para o primeiro brinde, uma alusão verdadeira ao espírito de fraternidade entre os homens.
E depois chamaram-me de arménio enquanto brindavam à paz e à amizade entre os povos e o rio revolto (no Cáucaso todos os rios são revoltos) amortecia o som dos copos a chocar no ar enquanto, no cimo da escadaria, o veterano de guerra e o seu cão, elogiava o meu Panamá Afegão, eu tenho um igual , e o seu cão preto, educado e imperial, abanava a cauda de focinho espetado sob os restos dos piqueniques, do nosso ou dos arménios, conforme a direção dos fumos e dos aromas.
Memórias que já se transformaram em lendas.
Enquanto deixávamos a aldeia de David Tek, recordávamos a família de Anne e as palavras de Narine Abgaryan, uma escritora Arménia no seu livro "E três maçãs caíram do céu” que nos explicava que cada linhagem da sua aldeia imaginaria tinha a sua alcunha. Na maioria dos casos era cómica e engraçada, às vezes irónica, mas havia, embora raramente, as muito ofensivas. A alcunha da linhagem estava em conformidade com o comportamento da pessoa, boa ou indecente, e depois o apelido era herdado pelos descendentes.
Anne e Armen teriam certamente direito a uma alcunha muito lisonjeira, demasiado lisonjeira para a minha fraca memória.
Saltamos, alternadamente, para o desfiladeiro do Diabo e depois para o grande Mirador, e assim se fez a nossa despedida da província de Suyin sempre  a subir, na direção dos 2 500 metros e do Caravansarai de Selin , um exemplar ainda conservado de estalagem do período tardio da rota da seda, mesmo que, em pleno seculo treze de invasões mongóis, pareça pouco credível que por ali tenham passado caravanas vindas do oriente.
Também em memória da rota da seda, proliferam as lendas pouco verosímeis que atravessam os lugares mais remotos da Ásia Central.
A chuva gelada de junho tardio, empurrou o nosso piquenique para as abóbodas geladas da estalagem medieval e, por momentos [breves de uma fraqueza súbita] desejamos voltar ao século doze porque, segundo K, haveria fogueiras ao longo do centro da galeria e, hoje só havia escuridão e frio eternos.


Lá fora, assobiava o vento que não era, contudo, suficiente para apagar os vapores de álcool dos seres de um terrestre diferente, os descendentes do abominável Homem das neves (eternas).
O mau álcool não é apenas uma lenda dos homens do Cáucaso, parece ser uma herança viva do seu passado.
A Clarence, uma motard francesa de porte impressionante e pouco impressionada com a rudeza efusiva dos homens locais , retida acidentalmente no alto da montanha por um equivoco linguístico, aproveitou a nossa chegada para se libertar dos vapores de uma hospitalidade insistente, homens que bebem álcool artesanal sobre o capot de um emplastro de quadro rodas, saltar para cima da mota e deixar o lenço para trás, como se quisesse assegurar-se de que eles não lhe seguiriam o rasto nem a sua liberdade.
A Clarence, desconfia deles, mas sabe reconhecer quem lhe fala em francês (eu tentava explicar a K o nome dela, e ela ouviu)
Eles asseguram a K que não tinham a certeza se a Clarence era uma mulher e não lhes passava pela cabeça dar-lhes boleia para o lago Sevan.
E falaram em arménio, sem risco de se perderem na tradução.
Mas a francesa já não nos ouvia, é para isso que as motos servem.
E, desfeitos os equívocos e os restos da merenda, planamos sobre o lago Sevan, ao mesmo ritmo da tempestade e do céu negro de trovoada e de pressentimentos que se escondiam atrás das montanhas.
Deixamos para trás as neves eternas, guardámos o lenço da Clarence e reencontramos a alma antiga dos primórdios do cristianismo na Arménia nas cruzes de pedra celtas (outra vez uma herança das cumplicidades cruzadas) do cemitério aos pés do lago onde, nos túmulos do presente, a fotografia do morto e o espaço vazio com o nome da mulher viva nos asseguravam que, na Arménia, o casamento é a para toda a vida e para a eternidade.
À noite, no restaurante sobre o lago, comíamos truta grelhada enquanto escutávamos a voz do arménio Demis Russos, cercados de madeiras pesadas da velha ordem, de um serviço muito demorado e de uma grande indiferença dos locais.
Enquanto suspirávamos pelo vinho branco de casta superior que, já hoje, tínhamos provado na quinta dos queijos salgados, à beira da água doce.
Mas, a dois mil metros de altitude, jaz o mar da Arménia 



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