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sexta-feira, 6 de abril de 2018

“Ku’damm 59”




O Berliner MorganPost proclamava a 17 de março que a Kurfürstendamm estava outra vez na moda.
Estreava o já aclamado “Ku’Damm 59”, depois de 56, a segunda série de um filme que narra o renascer da nova Alemanha do pós guerra, e o título não podia ser mais sugestivo quanto à importância simbólica da Kurfurstendamm, como a montra do milagre económico da guerra fria ou da ânsia de liberdade e emancipação da nova juventude pós 45.
É uma avenida com números impressionantes. Construída em 1883, perdeu para os Campos Elísios em metros de larguras 70 / 53 mas duplicou o seu comprimento, imaginem 3600 metros, números mágicos para os últimos suspiros de um dos grandes impérios da europa central
E neste sucesso comercial da ZDF, os números representam os anos da saga, não os números da porta ou outra qualquer medida de espaço, imensidão ou soberba.
Mas não consigo deixar de pensar que esta gigantesca avenida não mais despertou do sono profundo, desde que deixou de existir, provavelmente, a única razão pela quase ela precisava de afirmar a sua exuberância: o muro da cidade
Aquela que, nos anos do pós-guerra foi transformada num símbolo do ocidente triunfante foi engolida pela desmensurada dimensão que a cidade descobriu, nela própria, após a pulverização da fronteira.
Hoje, como há vinte anos, sente-se um perfume de decadência no ar, nas vitrinas quadradas que provocam os transeuntes na competição desenfreada pela largura e pelo comprimento.
Apesar do persistente esplendor do seu comércio, da elegância incontornável das suas esplanadas e dos seus hotéis, ou os veludos austeros e imperiais dos restaurantes, há um olhar vintage que se perscruta nos olhares dos empregados de mesa, dos rececionistas e das empregadas de balcão, como se tivéssemos regressado do futuro  à geração beat, às mini saias e às calças de boca de sino, sapatos de tacão alto e os shows de rock and roll, aos homens de meia idade de fatos claros e gravatas finas, cabelos penteados para trás e empastados de brilhantina, estilo convenções do SPD nos anos do humanismo glorioso, da crença no Estado Social como a solução para o futuro de uma Europa unida e, sobretudo, de Willy Brandt.
Os traços da decadência estão precisamente na arquitetura vanguardista das eras de cinquenta e sessenta, nas formas quadradas dos inovadores centros comerciais, lojas, cafés e cinemas que levantaram a cidade das cinzas da guerra numa apologia à modernidade do vidro e da funcionalidade das formas geométricas, uma afirmação da emergente sociedade de consumo que transformava os objetos em instrumentos de consumo prático, barato e disponíveis para utilização das massas.

O periódico alemão argumenta, contudo, num tom de indisfarçável revivalismo, que esta avenida era o “palco da expressão burguesa” e criou, ao longo das décadas seguinte, uma atmosfera incomparável.




Mas não consigo deixar de pensar que esta gigantesca avenida não mais despertou do sono profundo e dos espaços por preencher, agora que as novas tendências de modernidade se deixam tentar pelo apreço da dimensão humana das coisas.
Reconheço que não me consigo distanciar da primeira chegada a Berlim no comboio da noite proveniente de Hannover, atravessadas duas fronteiras, guardas austeros e arame farpado, uma chegada anárquica a Berlin Zoological Garten, a linha que continuava para leste, os milhares de transeuntes que se atropelavam nos corredores escuros e nas passagens subterrâneas, refugiados africanos, representantes de países em autodeterminação, simplesmente viajantes, multidões que saltavam para as ruas, que enchiam os restaurantes e os passeios da avenida de cinquenta metros de largura, automóveis que lotavam as faixas de rodagem da grande avenida, uma multidão que crescia com as horas da noite e eu, que procurava dormir no primeiro andar da pensão flórida, um hotel sem casa de banho, quartos despidos e corredores austeros, sonhava com o ruído dos motores, das conversas do tilintar dos copos, como se aquela – e as outras duas que se seguiram – fossem a última noite antes das premonições de fim do mundo que os Messias barbudos apregoavam nas esquinas da Joachimstrasse, acordava sobressaltado a todas as horas ao longo da noite e os ruídos ligavam a madrugada à manhã.
E no regresso às três da manhã, esquivando-me entre lambretas e automóveis estacionados em segunda fila na faixa descendente, as mesmas multidões multinacionais, a mesma gare lotada e ruidosa, apenas um silêncio de gelo quando se aproximava o comboio que chegava de Moscovo.
Por mais filmes que tenha rebobinado nos últimos 33 anos, nunca consegui entender o que por ali fazia e circulava tanta gente e tanta diversidade, sendo Berlim 85, uma cidade cercada.
Nessa perspetiva, nunca mais assisti ao acordar da Ku’Du.
Não deixo de reconhecer a bondade do esforço do Berliner MorganPost em recordar-nos que voltam a regressar as galerias de arte ao lado Oeste da cidade, é verdade que a Gare do Zoo continua a manter uma atmosfera de desespero vagabundo de outrora (diria mesmo que o tem recuperado ano após ano) e que os transeuntes não são assim tão poucos, sobretudo se não fosse sexta feira santa e o comércio não estivesse respeitosamente encerrado
Há sinais, querido periódico de Berlim, que o lado Oeste já começa a perceber quais os requisitos para readquirir uma auréola prometida de modernidade.
A Galeria C/O Berlin em Amerika Haus e a Fundação Helmut Newton, uma extraordinária retrospetiva da audácia, do glamour e da nudez feminina de um fotógrafo de moda berlinense desdenhosamente provocador e dos seus muitos amigos que, no limiar do surrealismo, enchem o edifício da sua Fundação.
A cem metros uma da outra com a Gare da Zoological Garten, entre as duas.
Ambas tão ao género do que já foi a Ku`Damm.
Este lado da cidade parece querer entender a mensagem, chamou os guindastes e parece estar a ultrapassar a sua fase de negação, a ideia antiga de que ser recente, significa modernidade.
Mas é difícil vencer o chamamento de leste, o charme da reabilitação do antigo com o cheiro a spray da arte urbana e marginal, uma estética de formas curvas e não convencionais, e é uma tarefa gigantesca unir a imensidão dos espaços e anular o desmesurado Tiergarten que foi criado para separar as cidades e não para as unir.
E o Berliner MorganPost vacila entre a saudade e o regresso, como se no caso da Kurfürstendamm isso significasse a mesma coisa



quarta-feira, 4 de abril de 2018

State Affair





Subir à cúpula do Bundestag é um assunto de estado.
Reichtag por Norman Foster é uma marca do modernismo alemão após reunificação.
Nunca o parlamento alemão tinha suportado uma cúpula com tanto vidro.
Nem quando o Kaiser Guilherme I a construiu em vidro e aço.
Nem com a renúncia do Kaiser e a proclamação da República, no final da primeira guerra, época genocida para os grandes impérios da Europa Central.
Nem quando Hitler alegadamente lhe pegou fogo para incriminar os adversários políticos e apoderar-se de dois terços do parlamento, com quarenta e três por cento dos votos.
Nem depois a sua destruição pelo Exército Vermelho, nem quando o decidiram reconstruir após a guerra, nem quando uma multidão de berlinenses se reuniu à volta, no bloqueio de 1948 e o presidente da câmara clamou para que “Vós, povos do mundo, socorram esta cidade”
Nunca o Reichtag tinha suportado uma cúpula com tanto vidro, mesmo quando Christo a cobriu de tela em 1995.
E, porque nada em Berlin, pode ser olhado (sequer) sem as devidas associações e os carregados simbolismos, a nova cúpula de vidro do novo parlamento alemão (o que são afinal dezanove anos na intensa história de Berlim?) é um mundo de possibilidades de interpretações simbólicas.
Símbolo da transparência dos poderes parlamentares, o redondo da agregação de uma nação, uma circunferência que marca (ambiciona) uma nova geometria de centralidade na Alemanha europeia, a libertação da democracia alemã da tutela das grandes potências vencedoras da última grande guerra.


Do alto da cúpula desenhada por um americano, estende-se aos seus pés, a embaixada americana na zona de ninguém, entre muros, apoiada no imperial arco de Brandemburgo, a russa uns metros depois no início Unter den Linden e a inglesa na mais modesta e lateral traseira do luxuoso Adlon.
Todos aos pés do centralismo unificado do Reichtag.
Por todas estas interpretações infundadas e simbolismos possíveis, subir à cúpula do Bundestag (uma forma de retirarmos o peso histórico) é um assunto de Estado.
Pode até ser gratuito, mas tudo tem um preço, exceto a segurança nacional.
Exige prévia marcação gratuita, mas igualmente prévia revelação de identidade para escrutínio da polícia, a oportunidade de descobrir um slot disponível em vida útil compatível, uma grande vontade que nos leve a descobrir uma opção executiva e organizada a vinte e dois euros com um chá incluído e direito a repetir (o chá), ou então…em momento de irrefletido desvario de subir aos céus nas asas do desejo (óbvia associação a Wim Wenders, eu sei)  , e ao preço de uma viagem low-cost até Berlim, a reserva de uma mesa para almoço ou jantar no resplandecente Kaffer, com direito a todas as subidas e descidas à cúpula que o corpo aguentar, tendo em conta que, o arrojo e o modernismo assim o exige, as subidas e as descidas se fazem por rampas diferentes.


Sempre com prévia revelação de identidade, com comprovação documental da mesma nuns barracões pré-fabricados plantados no lamaçal da fachada principal,(que obscurecem a grandeza da mensagem que, sobre as arcadas, nos assegura que ali vive o povo alemão), o acompanhamento muito atento até à porta principal, com portas duplas que se abrem alternadamente e a entrada num elevador apinhado, guardado por um zeloso guardião da subida ao topo, que reserva para ele próprio a única cadeira que sobe e desce dia inteiro, de manhã até à meia-noite.
E, finalmente, a cúpula.
No absoluto centro da nova e da velha cidade (e quarenta e quatro anos de baldio entre as duas referências anteriores) com as pérolas aos nossos pés, a pretensiosa Potsdam Platz, o gigantesco e despido TierGarten, o sólido Arco de Brandemburgo, a reverente Catedral, a espaventosa Torre de Televisão e as centenas de guindastes que parecem pendurar a urbe, muito para além do tempo esperado.
Tudo, símbolos da História e da alucinação que foi, e é, esta cidade.
Do topo, só a coluna da Vitória, empurrada do Reichtag para o fundo da rua 17 de Junho, por um pequeno homem de bigode a quem a estátua importunava a vista, parece dialogar com a nossa visão em plano de igualdade (ou serão os anjos que a sobrevoam?)



Quanto á cozinha do Kaffer é demasiado científica, uma culinária vista como um processo químico com uma fascinação pelo orientalismo gastronómico, de sabores orientais exóticos, empratados em ingredientes alemães.
Falta-me a alquimia do improviso e dos sabores mediterrânicos, e parece-me que este fascínio súbito pelas tendências orientais (da pintura modernista do Hamburger Banhof à culinária do Kaffer ou da comida de rua que empesta o ar das ruas de Mitte) é uma vingança fria e cruel dos derrotados da reunificação porque, até olhando cá de cima, se conclui que o glamour se transferiu quase todo para Oriente.
Em vésperas de uma manhã de neve, repleta de uma neblina romântica e vista cá de cima, Berlim já não sobrevive da história, antes transformou-se na capital do Leste.
(Mais uma associação abusiva e impertinente)



segunda-feira, 2 de abril de 2018

Tempestade na ilha dos museus





Os ventos de leste percorrem as arcadas neoclássicas dos museus imperiais.
E está frio, muito frio, tão cortante como as vozes das espanholas que nos martelam os ouvidos, não há frio que lhes seque a voz.
Enquanto elas se empurram, nos empurram, com um coro de vozes sem intermitência nem pudor, e nos tocam, nos apalpam, naquela agitação de tudo querer contar umas às outras, evitando a chuva e o vento, esquecendo-se que existe uma fila, ignorando a vizinhança ibérica ou outra qualquer, não há obviamente nada de sexual no calor dos seus corpos ou almas, a rapariga eslava que nos antecede na fila, descontente com as aproximações involuntárias da alma ibérica, ou por choque em cadeia ou por osmose, encolhia os ombros, lamentava ao (muito mais idoso, e por isso provavelmente grato), parceiro e trocava de lugar sempre que a ola a perseguia.
Havia, ao longo desta fila que se entornava (sim porque chovia, sim porque havia uma fila à chuva e outra à sombra de uma arcada que soprava todo o frio que se esquivara da chuva, sim porque avançava às vagas ou solavancos) um caleidoscópio das divergências comportamentais da Europa do Atlântico aos Urais.
Como as espanholas, que transformaram o primeiro lugar da fila à chuva no último da fila à sombra, provocando estridentes compressões na península
Ou a eslava a quem o contacto físico gerava repulsa e o velho lobo da Silésia que a protegia.
Ou os italianos indiferentes.
Quase tantos mundos quanto os impérios de Pérgamon, o museu montagem da elite da arqueologia alemã da mudança de século XIX para XX.
Por estes dias mantém a ala sul fechada para restauro, imaginemos nós o império grego e o magnífico altar de Pergamón encerrado para obras, não há aproveitamentos políticos ou sinais de um novo poder às periferias idealistas e despesistas enquanto expõem o Império Romano, a Babilónia e doze séculos de mundo islâmico, povos que sempre apresentaram uma consistência territorial e uma noção de Estado, bastante mais condizente com a reputação germânica.


E com a ala sul fechada para obras de restauro (ao que consta até 2019, para depois fecharem a ala norte para restauro das restantes civilizações e construírem uma quarta ala que permitirá uma visita aos quatro impérios e civilizações de uma forma ordenada, coerente e sequencial) perde-se a possibilidade de evitar as filas de europeus que não procuram, nas diferenças das civilizações da antiguidade, o fio condutor da civilização ocidental, pelo menos de uma forma tentativa.
Basta olhar à volta e observar as reações da europa a vinte e sete ao contacto físico.
Palavras de museu (a primeira metade do parágrafo) inquietação do autor em toda a restante.
O desconforto da fúria renovadora desta nova Alemanha, que mantém a ilha (e o resto da cidade) em estado de um estaleiro quase histórico, que não permite entradas rápidas a portadores de bilhete, exceto com pré-marcação (quase virtual) nos postos de turismo da cidade, e que mantém toda a cidade num estado de sítio, apenas incomoda os forasteiros, porque parece tão devidamente planeado como uma inevitabilidade de quem considera que tem tempo e que não pretende recolher os guindastes enquanto Berlin não for a capital perfeita da Europa.
E se foi destruída em dois anos, adiada durante mais dezoito e trancada ainda mais vinte oito, existe a ideia de que, todo o tempo do mundo, se justifica, para transformar Berlin na cidade imperial perfeita.


E a forma como se pretende adicionar uma quarta ala – mesmo que tal signifique que só teremos um museu completo lá para 2022 – é quase uma declaração de que não chega recuperar a história, mas é sempre necessário acrescentar presente, mesmo que este – à luz dos valores e da estética herdada da Antiguidade Clássica que povoa o Pérgamon e inspirou o lado ocidental da civilização europeia – nem sempre nos pareça muito adequado e coerente.
E os alemães respondem-nos com audácia, atrevimento e disrupção e com um orçamento de obras públicas colossal.
Provavelmente confortados com tão dispares predisposições ao contacto físico que demonstra a nova circunferência continental, a Alemanha permite que Berlin – de forma quase autodeterminada - estenda as suas intermináveis avenidas a leste com emprego e solidariedade ocidental e umas vagas origens históricas comuns, como os dois braços estendidos aos extremos, em torno de uma nova alma europeia.
Considerando a reação eslava à euforia ibérica, até é capaz de fazer sentido que Berlim continue em obras nos próximos vinte anos.
As opiniões dividem-se entre o meu Eu interior e exterior, o meu Eu racional e sensorial e uma certa precaução que a História recente aconselha.
À saída do Pérgamon, a única certeza que tínhamos adquirido, era a de que todos os grandes impérios do passado se tinham, de uma forma ou de outra, desmoronado.



segunda-feira, 19 de março de 2018

Os adoradores dos elementos




Eles nascem todos os Domingos de manhã em que os elementos se revoltam, transpõem as barreiras de proteção porque o horizonte parece sempre mais longe e correr riscos desnecessários é uma latina afirmação de virilidade.
Como se os elementos fossem a representação suprema da condescendência da natureza, eles correm nas margens, acalmam as ondas, contornam o vento e refletem as nuvens e o Sol.
A diversidade cultural, os nossos corredores de fundo e a afirmação dos bichos de estimação.
Os adoradores do mar e do céu.
Na foz do Douro.