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segunda-feira, 4 de junho de 2012

Extratos (de conta) do Maio tardio - dicotomia parte I



Manhã de meio Verão mas o povo não ri!
Sufoca de ansiedade, resiste na certeza de que vamos continuar a perder num campeonato que não vai terminar esta época
As notícias boas são as notícias más porque não queremos (não podemos) ser o calcanhar de Aquiles da Europa que também é nossa.
Está calor mas a malta não ri!
Eles vão para a praia, uma enchente de desemprego e de horários por turnos
Símbolos contrários do consumo que abraçámos
Na praia, temos no mar a miragem dos veleiros, será que reinventámos as descobertas para onde, não sei talvez por ai?
Ângela e o trovão no avião do hollande
A Europa do crescimento tremeu!

domingo, 3 de junho de 2012

O taxista que gostava de jazz


Nada na manhã precoce do táxi acelerado condizia com o som que exalava das entranhas deste publico veículo de transporte personalizado.
Oito e cinco da manhã na curva da Sá da Bandeira, à saída do Teatro, escurecido e estilizado hotel sem palco, e um teatro de revista que não acorda do espetáculo da noite tardia.
Entre as curvas da rua, a Brasileira sorri detrás da majestosa fachada tolerante (pela idade e pelo estatuto) diante da imagem cinemática do mercedes, um milhão de quilómetros mínimo, coração ao alto mas cansado, que atacou a curva debaixo em duas rodas (um pouco de exagero de fita de animação) e encarquilhou a alcatifa de asfalto (o efeito é mais parecido com um levantar de ondinhas) com uma atlética travagem (eu juraria que a traseira levantou, outra vez duas rodas)
Sim, nada previa a harmonia do som de jazz e swing que se desembaraçava a cada solavanco da empedrada calçada do Sá da Bandeira, coração de leão da cidade.
Um bafo de tabaco entranhado e tardio espirrou pelas portas recém- abertas!
Um clube noturno sobre rodas que ainda não reabrira de um estonteante noite de swing?
Hot club do Porto em corrida contra os seus fantasmas, angra de heroísmo acima despenhando-se Campanhã abaixo
A ausência de sintonia entre o som leve, o odor pesado que não desanuviava com o fresco marítimo da manhã e o corpulento guardião da louca travessia do herbie...
Momento seguinte número 2;
Cabeça soerguida tronco de fora na passadeira da praça dos Aliados
As turistas com um olhar loiro e os corpos promissores que atravessam a passadeira em busca de um táxi que as leve a elas, e às pesadas bagagens, para o paraíso das companhias aéreas de baixo custo
Pedras Rubras
Taxi, turn right Taxi
Homem corpulento corpo de fora da janela.
Elas entenderam que o táxi bafo de onça estava ocupado mas que havia outros no turn right
Porque a cidade insiste nos táxis parados
E o swing barafustava ao longo do caminho em direção ao jazz final e definitivo.
“Estás a apitar porquê?”
Uma lata velha de um vermelho que apodrecia ao ar, e uma razoavelmente jovem refreava os ânimos mediante a visão do corpulento taxista.
Ela não conseguia mesmo passar por ali.
“A menina tem falta de jeito” – sussurrou entre dentes o taxista que gostava de jazz

terça-feira, 22 de maio de 2012

A Tomada da fortaleza de Alqueidão, sem resistência nem heroísmo patriótico


A fortaleza está sempre aberta! – o à vontade do estalageiro da tasca da beira da estrada, monte acima deixou-me desconfiado
Voltei tão breve como prometi a mim próprio, porque me fascinou a forma como eles conseguiam comunicar por telégrafo ótico em seis minutos, entre o Tejo e o Atlântico!
A viagem ao campo de batalha é um deserto histórico, a anti promessa do Centro de Interpretação, uma muito vaga referência às muralhas das linhas de Torres
Não há portão, nem fosso nem pedras empilhadas que nos façam lembrar as barreiras inexpugnáveis e lá se foi aquela imagem preconcebida de fortaleza
Mistério. Como desapareceram mais de quarenta quilómetros de muralha de pedra em duzentos anos de História sem guerras substanciais?
É um elogio do lugar vazio, não há senão restos escavados de muralhas, paióis e um memorial de cimento, levemente modernista e pomposamente inaugurado pelo presidente Aníbal
Até 2010 seriam apenas montes verdes com uma vista avassaladora, do Tejo ao Atlântico
Arqueólogos desenterram passados recentes e encontram sinais do paiol. Os ingleses tinham aprendido a lição de Almeida e enterraram-no bem fundo nos montes de Torres. Aparentemente protegeram-nos das tropas de Napoleão e do sinal dos tempos
Pedras desmontadas por um povo que lhes encontrou outra utilidade?
Bela oportunidade perdida de rivalizar – à nossa dimensão – com a muralha de China!
O estudo topológico do lugar revela hoje como revelou antes um lugar mágico, uma vista que cola o infinito, ontem pejada de coloridos soldaditos de chumbo, pequenos napoleões desorientados pelos vales profundos e pelas fortalezas que os espiavam de um inesperado céu, a 435 metros de altitude, de manhã mais a norte, outros dias mais a sul, sem poderem ver nem o mar nem o tejo
Hoje pejada de energia eólica, as verdadeiras fortalezas são quase voadoras, feitas de hélices que assustam os pássaros e fornecem eletricidade
Serão as novas muralhas ou os soldados da moderna república de Napoleão?


segunda-feira, 21 de maio de 2012

A contemporânea fábrica da noite






Lx factory fervilha de onda alternativa
Cheiros, cor e experiencias alucinogénias na noite da fábrica, turno da noite.
Cheira a torradas, sumos de fruta e erva, petróleo dos comedores de fogo, vernizes e lacas, tintas sintéticas, seja cor dos cabelos ou street art, uma nova versão remasterizada e culturalmente aceite do marginal graffiti.
Quando transpomos os portões da fábrica, sentimos a calçada irregular a afundar-se nas poças de uma chuva que caiu tropical e traiu as mini saias e as pernas longas
Armazéns orgulhosamente decrépitos alinham-se nas margens de uma ribeira de pedras reluzentes, despejando desordem criativa em cada canto, reluzentes espaços e sombrios becos em sintonia com todos os seres que povoam a noite e experimentam criatividades exuberantes
Os putos vagueiam na movida, cerveja a preço de moeda comum nas mãos ao alto e o ambiente decrépito chic envolve a atmosfera energética que destrona a chuva e revela pontes entre a arte e o comércio, a música, a dança, tecnologia visual e a expressão dramática.
Entre a ordem e a desordem…
A sofisticação e a arte urbana sem códigos nem acabamentos…como eu gosto!
Não há portas e a entrada é sempre livre, beber ou experimentar o som que compete entre espaços, sem decoração, verdadeiras caves sem mobília e que sobrevivem de tecnologia e de ícones intemporais
A Betty Boop pisca os olhos à multidão, num ecrã levemente avermelhado!
Subimos as escadas a respirar os sons techno que escorrem pelos degraus e, lá em cima, na improvisada pista de dança um casal devora-se em palco, diria que encenavam um tango no seu isolamento sensual…
A noite respira diversidade, de pernas longas a rodas curtas, suave mistura entre a intelectualidade erudita e a beautiful people, gente alternativa e miúdas intelectualmente bem comportadas, sempre calçada acima…
O comedor de fogo entope a ruela e lança um bafo de fogo para a imagem de Betty, cruzando os ares sobre a calçada reluzente e descobrindo um ninho de fêmeas que se beijam sob as nuvens com orgulho e sem preconceito
E a malta não liga
18 de Maio na cidade, Open Night no LX Factory