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quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

O desfile das Katrina

 

O avô mexicano que falava sem parar na fila dos cacifos da estação rodoviária do Norte, da herança europeia do povo mexicano, vinha à cidade com os netos ver a final de basquetebol, e ele agitava-se e apontava, como se ele estivesse longe, este é o meu neto, com camiseta de basquetebol sim, ele vinha com a sua malinha e ia para a bola 
Sejam bem-vindos ao México, já depois de ter abordado a política mexicana e mais alguns assuntos da atualidade que eu não decifrei, entre a sua pronúncia cerrada e o seu sorriso reconfortante.
E a Cláudia, a presidente. entre o trânsito intenso e a faixa do metro bus, escapuliu-se num dos três carros de uma qualquer marca americana bruta, sem matricula que a identifique, exceto para o condutor do Uber que apontou com os olhos e desferiu o golpe: é a Cláudia 
E nós, neste domingo, viemos para o desfile da Katrina no Paseo de Reforma
A multidão engoliu-nos numa palete de cores e de movimento e nós dissemos que sim.



segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

As lendas de Guanajuato

 

Em Guanajuato regressamos aos lugares de dimensão humana, uma pequena cidade encravada nas montanhas, na época de colonização espanhola, um dos maiores produtores de prata do mundo.
A entrada no centro histórico faz-se através dos tuneis que ligavam as minas e a cidade por carris que transportavam a prata em vagões.
Em Guanajuato, hoje, não há vestígios de prata, mas sobram as memórias construídas, o faustoso teatro Juárez, a Catedral, e os palácios que povoam a base do planalto, sim a base, porque pelas encostas acima, mantém-se as cores, mas perde-se qualidade nos acabamentos e, quando se sobe muito, os tijolos começam a ficar à vista, parece que o cheiro da prata não sobe tão alto.
Mas sobram histórias de amor impossível, a filha de uma família rica que se apaixonou por um rapaz pobre e eles, tal como Romeo e Julieta, preferiram o amor eterno ao preconceito e o rapaz mudou-se para uma casa contigua à casa da rapariga onde continuou a vê-la, aproveitando os momentos de distração do austero patriarca de família.
Hoje sobra o ritual do beijo de Romeo e Julieta em duas varandas que juntam os prédios dos amantes.
Uma história que só pode ver acabado mal, uma tragédia de Shakespeare, na capital da prata.
Mas em Guanajuato também nasceu Rivera e na sua casa, agora museu, existe um pintor mais contido, porque afinal Rivera aprendeu os clássicos em Itália, os modernistas em França e as suas raízes longínquas em Espanha e o artista deixou um espólio relevante das suas fases menos exuberantes, mais intimistas.
E em Guanajuato, apesar dos sinais exteriores de riqueza serem coloniais, uma herança do sangue e da prata, é na luta da independência do México que a cidade recebe o devido reconhecimento.
Bom, é um reconhecimento dos momentos simbólicos como o grito de Dolores e o 17 de setembro, que são hoje reconhecidos como a primeira manifestação de consciência nacionalista encarnada num padre Hidalgo e os seus vinte e oito mil fiéis que invadiram o deposito de cereais e venceram a primeira batalha contra o exército espanhol.
Sempre na realidade muito mexicana de que a independência foi feita pelos espanhóis nascidos no México (aparentemente os mais abonados e conservadores) e não pelos indígenas, enquanto Cortez foi ajudado pelos indígenas, inimigos de Moctezuma, na conquista do México.
Esta contradição, a conquista fizeram-na os indígenas e a independência os europeus, parece ter determinado o destino dos indígenas na hierarquia do México moderno.
Quanto a Hidalgo, ele foi traído, fuzilado e decapitado em 1811 e a sua cabeça depositada numa jaula e pendurada num dos extremos do forte por tomado por ele, um ano antes.
A independência de facto ocorreu apenas dez anos depois e nada mais aconteceu de relevante nesta parte da futura república.


Mas Guanajuato parece preferir as ondas de presente, um jovem que toca composições clássicas num piano estacionado no meio da rua, centenas de mariachis que cantam e tocam pelas ruas fora, galerias de arte que confrontam as culturas mexicas em cores intensas, artistas da universidade de belas artes local, apresentados numa visita guiada individual por um estudante da escola que teve o cuidado de nos informar que não tinha quadros de Rivera, mas que todos os pintores daquela sala tinham estudado na mesma universidade, ou finalmente o teleférico de uma vista deslumbrante sobre a cidade, um planalto em forma de concha rodeado de um anfiteatro natural cheio de influenciadores no fim da tarde.
Na catedral, prepara-se um casamento e o padre chega cedo, a tempo de ajudar a debutante que tropeça no vestido de balão e, cá fora, ficamos sem saber se o carmen guia é para os noivos, para a debutante ou uma relíquia da nova igreja para atrair fiéis. 
Porque é uma cidade do presente de dimensão humana em Guanajuato, o México fala-nos pela primeira vez, e na primeira pessoa, dos milhares de migrantes que atravessam o país todos os dias de sul para norte. É numa galeria escondida na parte de trás da cidade, mas as portas abertas permitem ver imagens fortes que nos obrigam a entrar.
"Sin Itaca que te aguarde" é o fragmento do poema Peregrino de Luis Cernuda e sugere uma procura sem destino nem lugar de descanso, e assim ficamos sós num corredor escuro rodeado de imagens iluminadas de desespero e sofrimento.
Como as pessoas desaparecidas cujos rostos aparecem desfocados nos postes da cidade, milhares de famílias sem respostas, muitas vezes para a vida, uma praga que ninguém conhece ou partilha as suas origens.
Na manhã, quase madrugada, o autocarro que cantava melodias de victor fernandez sempre me respondes qui cas qui cas ...pensando. pensando hasta quando.... desesperando qui cas qui cas.
São sete da manhã em Guanajuato 
O autocarro parece desfazer-se em cada curva, em cada nota da música, em cada quadra sofrida do cantor, mas só desta forma fazia sentido despedir-me de Guanajuato 



sábado, 29 de novembro de 2025

O velho guia, uma versão revolucionaria da historia e a jovem burguesa

 


Na Secretaria da Educação Pública, Rivera trabalhou quatro anos numa comissão  de serviço patrocinado pelo então ministro Vasconcelos, nos finais dos anos vinte, numa época em que o poder procurava harmonizar a constituição de 1920, que sintetizava as principais reformas reivindicadas pelas diversas fações do movimento revolucionário, com as diferentes visões da sociedade dos diferentes grupos corporativos mais conservadores ou mais liberais que a república criou e ainda com a realidade que normalmente contraria as  convicções utópicas do homem bom.
Ao longo dos anos e décadas seguintes, os vários regimes da república e a irreverência ideológica de Rivera aprenderam a conviver e, nas dezenas de murais que foram pintados naquele local, nasceu uma visão muito própria da história do México que, mesmo com divergências ideológicas substanciais com os regimes e com as lições da historia moderna, se tornou numa espécie de visão oficial da história da nação.
Já no antigo colégio de San Ildefonso, os temas no anfiteatro bolívar são a forma abreviada do mais importante da história da humanidade, segundo o autor.
A cena parece reproduzir a ideologia de Vasconcelos, a mistura das raças, a educação pela arte, a vida segundo as virtudes da religião judaica cristã e o uso sábio das ciências para controlar a natureza e para que o homem encontre a verdade absoluta.
Parece que é assim, mas nós não vimos, a sala estava fechada para ensaios e a aflita funcionária do museu que, tal como a maioria dos mexicanos não gosta de dizer não, encolhia-se na falta de autoridade para nos deixar entrar. E sorria, pesarosa, sempre podem visitar as criações dos outros muralistas, e sorria outra vez, ela parecia gostar de finais felizes.


E os murais de Siqueira e Orozco podem não ter a mesma vertigens do que os de Rivera, mas têm a mesma ambição e se o destino da nação dependesse apenas da intensidade criativa da inspiração e vontade dos mestres, há décadas que o México tinha destruído a velha ordem.
As obras de Rivera procuram espalhar a convicção utópica de que o homem consegue transformar criativamente a sociedade e alcançar assim.um futuro melhor e mais justo.
A visão política do povo mexicano pintado a partir do desenvolvimento de uma iconografia revolucionária para o México, harmonizando os ideais revolucionários e a herança índia da cultura mexicana.
São visões grandiloquentes, excessivas porque nada para ele pode ser menos que épico como os Zacatecas que produzem minério, a cor de marte que na mitologia grega romana significa guerra, a guerra e o trabalho escravo, os pueblos fantasmas de Pedro Páramo, o Gringo Viejo de Carlos Fuentes com Gregory Peck and Jane Fonda que fala dos perdidos na revolução ou como se perdeu a revolução, David e Golias ou a convicção de que o inimigo pode ser muito grande mas que nós podemos vencê-los com armas rudimentares 
Mas hoje, nas arcadas da Secretaria de Educação Pública, a visão contemporânea da jovem  burguesia mexicana mestiça, muito maquilhada, de top agressivo e que se recusa a entender o inglês, língua oficial da visita guiada,  vergou a militância do velho guia popular, portador da visão  revolucionária oficial e devidamente sindicalizado que pareceu subitamente desinteressar-se dos momentos épicos de Rivera sempre que a jovem esboçava algum gracioso protesto ou lhe respondia com visível desprezo que era de cá, da 
Cidade.
E o velho guardião do pensamento revolucionário perdeu a eloquência e tornou-se subserviente, algo que Rivera nunca perdoaria. Nem nós!
E assim nós e as pinturas de Diego abandonamos o patético guia e a petulante menina da cidade, e levámos a arte do génio para o piso superior do pátio interior da secretaria da educação.
Como escreveu Octávio Paz, na entrada do edifício da secretaria da educação pública " A vida não é de ninguém, todos somos a vida - pão de Sol para os outros, para todos os outros que somos nós "
Ninguém fica indiferente à intensidade dos sonhos desta cidade.






quinta-feira, 27 de novembro de 2025

La Llorona

 

Na calle da República da Guatemala, os dois mendigos estavam deitados na berma do passeio cobertos por uma mesma manta, tapavam-se até ao queixo e conversavam animadamente sorrindo de boca desdentada.
A multidão das nove da manhã, caminha com a pressa de quem vai trabalhar, e também há colarinhos brancos no centro histórico, mas também de quem não quer dar pela presença dos dois homens deitados na berma do passeio, mas também eles não parecem dar pela presença da multidão, uma indiferença recíproca, aliás muito justa. 
Eles também riem para sobreviver na manhã amena, a olhar o céu entre as sombras dos prédios.
Um pouco mais á frente, a freira de azul-bebé e mascara preta vendia bolos secos encostada ao prédio, enquanto o resto da cidade se agita na manhã precoce, entre bancas de rua que vendem fritos que cheiram a pequeno almoço e uma pick up da policia que circula velozmente, com dois policias em pé na caixa aberta traseira.
Ao nosso pequeno-almoço trocamos panquecas e café de olla com a história recente do México, afinal de contas o café Tacuba é um café histórico, uma conversão de um antigo convento em 1912 , certamente expropriado à igreja pela revolução.
Uma imagem feliz do México, um país sempre em revolução, mas que, no seu íntimo, só quer viver feliz, livre e com estilo, como o café histórico de Tacuba.
E, como sempre, também hoje, o Zocalo mantém-se agitado, convertido em marcha de policias ou de manifestantes ou apenas de transeuntes apressados.
Mais quinze minutos de metro, e mudamos novamente a perspetiva enquanto as primeiras carruagens, só para mulheres e crianças até treze anos – para as proteger de uma praga chamada assédio - passam por nós, na plataforma, a caminho de Buenavista e nós a questionar (sempre a questionar, quais mentes inquietas!)  se o assédio começará tão cedo assim, treze anos não é mais do que uma adolescência moderada.
E a nova perspetiva de regime desfila nas salas do museu de antropologia e neste magnifico edifício dos anos sessenta do século passado, a História é mostrada da forma como o México moderno escolheu para afirmar a sua identidade, em que o regime do partido quase único que herdou o centralismo dos séculos anteriores em décadas no poder absoluto se vê (mais do que isso, se projeta) transfigurado no mundo azteca e ao contemplar-se, afirma-se.


Procurando não pensar que parece ter sido uma profunda angústia existencial que levou os poderosos aztecas a entregar-se, de uma forma dócil, ao sacrifício coletivo.
Portanto, regressados outra vez ao contraditório, quer  evoquemos o destino deles quer a sofisticação do património construído.
E, sem dúvida, ao esmagador que nos habituou a cidade.
Mais tarde, em Xochimilco, as últimas superfícies aquáticas que sobreviveram aos séculos de aterro do lago salgado, abandonamo-nos ao lúdico e ao universo do fantástico e das lendas e aprendemos que o axolote, um anfíbio pouco dotado para a beleza e para a utilidade prática, é,  afinal de contas um ser humano que, ao transformar-se, procurava fugir aos sacrifícios humanos maias, apesar de haver quem diga que os humanos se sacrificavam voluntariamente, especialmente se eram derrotados de guerra
Apesar deste caminho para a liberdade, o axolote não tem tido vida fácil, especialmente desde que descobriram que o mesmo possui propriedades curativas contra o cancro e a favor da vida eterna.
Na ilha das bonecas choronas, um velho local terá encontrado uma criança afogada nos canais e, para acalmar os espíritos, juntou uma grande quantidade de bonecas para acalmar os espíritos, que pendurou nas árvores de uma ilha desabitada.
O velho morreu, mais tarde, na ilha das choronas, em circunstâncias misteriosas.
Na voz dos mariachis que nos abordaram, no seu barco a remos, ecoavam os sons aflitos de Chavela Vargas e, sem surpresa, ouvimos La llorona, o último latido da água.
E o miúdo que remou como um herói três horas a fio, recebeu a nossa propina e beijou as notas de pesos enquanto se benzia de gratidão como se o universo tivesse sido criado com um propósito divino, e tudo o que acontece ser bem capaz de fazer parte desse plano.